Vicente Aragão tinha cinquenta e três anos e uma frota de seis caminhões que levavam soja do Mato Grosso até o porto de Paranaguá. Conheceu Renata numa festa de fim de ano em Cuiabá, ela trabalhando na recepção do hotel onde ele ficava toda vez que ia negociar frete. Dezoito anos de diferença, e ninguém achou que ia durar. Durou sete.
Renata dizia que não ligava para dinheiro, e ele acreditava, porque ela nunca pedia nada — nem joia, nem viagem, nem carro novo. O problema é que ela também nunca sorria de verdade, só quando alguém estava olhando.
O personal dela se chamava Diego, trabalhava numa academia chique perto do Shopping Pantanal, daquelas que cobram trezentos e oitenta reais de mensalidade e servem água de coco na entrada. Renata ia três vezes por semana. Em um mês virou quatro. Depois virou "só hoje eu vou treinar sozinha, Vicente, pode ir pra fazenda sem mim".
— Por que você não pede o divórcio logo? — perguntou Diego, um dia, deitado na cama de um motel na saída da cidade, o ar-condicionado pingando numa poça no carpete.
— Porque separação de bens ele nunca assinou. Se eu me divorcio agora, fico com uma fração disso tudo. Se ele morrer, fico com tudo.
Foi nessa frase, dita sem pressa, tomando um copo de água mineral com a etiqueta ainda molhada, que o plano nasceu.
Vicente tinha uma chácara às margens do rio Cuiabá, com um barco de pesca de dez metros que ele mesmo pilotava aos domingos, sempre levando os cunhados, os funcionários mais antigos, às vezes só ele e o rádio ligado no programa de sertanejo. Renata sabia que, em certas saídas, iam só os dois — ela dizia que queria "reconectar o casamento". Passou três semanas sendo a esposa mais atenciosa que Vicente já tinha visto: café pronto, camisa passada, perguntas sobre o embarque de soja que antes nunca fazia.
Num sábado de julho, ela sugeriu que subissem o rio até a Baía do Chacororé, onde a água fica funda e o sinal de celular já não pega. Vicente, satisfeito com a mulher grudada nele de novo, nem estranhou quando viu Diego esperando na beira do barco, ao lado de Osmar, o caseiro que cuidava da chácara havia dois anos.
— O que ele tá fazendo aqui? — Vicente perguntou, ainda sorrindo, achando que era brincadeira.
Ninguém respondeu. Osmar segurou os braços dele por trás. Vicente se debateu, chutou, gritou o nome da mulher — mas dois homens contra um de cinquenta e três anos não é disputa. Amarraram os pulsos com uma corda de amarrar boi.
— Renata. Por quê?
Ela olhou pra ele como quem olha pro relógio da parede.
— Porque eu tô cansada de esperar.
Diego trouxe uma âncora de ferro enferrujada, dessas que ficam largadas no fundo do barco há anos, e um pedaço de corrente. Prenderam a corrente no tornozelo de Vicente. Ele ainda olhou pra Renata como se esperasse que ela mudasse de ideia até o último segundo. Ela desviou o olhar pra margem, onde uma garça branca tinha acabado de pousar num galho seco.
Jogaram a âncora primeiro. Depois empurraram Vicente pela amurada. A água do Cuiabá, marrom e funda ali na baía, engoliu o corpo em menos de dez segundos. Ficaram bolhas subindo por um tempo, e depois nada.
Renata se serviu de um copo de vinho que tinha trazido numa garrafa térmica.
— Agora é tudo nosso — disse Diego, abraçando ela por trás.
Brindaram ali mesmo, no convés, o sol batendo forte, o cheiro de diesel do motor misturado com o barro do rio. Não sabiam que aquele brinde ia custar caro.
Renata chegou à delegacia de Várzea Grande à noite, chorando, contando que o marido tinha bebido demais, tinha ido lá pra trás verificar o motor e escorregou. A busca dos bombeiros durou quatro dias. Não acharam o corpo. No enterro simbólico, sem caixão, Renata chorou tão convincente que as amigas de Vicente choravam junto com ela, uma até levou um vidro de água com açúcar achando que ela ia desmaiar.
O problema surgiu oito dias depois. O advogado da família explicou que, sem atestado de óbito e sem inquérito concluído, nada do inventário andava — nem os caminhões, nem a chácara, nem a conta no banco em Cuiabá. Precisava esperar a Justiça.
E foi esperando que, numa quarta-feira à tarde, dois investigadores da Polícia Civil bateram na porta da casa dela, no bairro Jardim Aclimação. Renata abriu achando que era só mais uma formalidade do processo. Um deles pôs uma foto em cima da mesa da sala.
Era Vicente. Vivo.
Ela sentiu o sangue sumir do rosto — a mesma sensação de quando o elevador desce rápido demais.
O que ninguém sabia — nem Renata, nem Diego — é que Vicente, décadas antes, tinha feito curso de mergulho na Bahia, e desde então nunca subia num barco sem uma faca pequena presa na cintura por hábito, por mania, por sorte. Enquanto afundava com a âncora puxando pra baixo, conseguiu cortar a corda que prendia um dos pulsos e, torcendo o corpo, soltou o pé da corrente antes de a âncora arrastá-lo de vez para o fundo. A correnteza o levou uns duzentos metros rio abaixo, longe do barco, e ele boiou até a superfície já quase sem ar, os pulmões ardendo.
Dois pescadores de tarrafa, pai e filho, que trabalhavam perto da margem, viram um vulto boiando e remaram até lá. Puxaram Vicente pra dentro da canoa mais morto que vivo. Ele queria ligar pra polícia na mesma hora, contar tudo, mas o delegado que assumiu o caso pediu que ele ficasse escondido por uns dias na casa de um parente em Rondonópolis. Precisavam de provas — e a melhor prova viria da própria Renata.
Achando o marido morto, ela não se conteve. Trocou mensagens com Diego sobre vender a chácara, transferir dinheiro de uma conta pra outra, comprar um apartamento na praia em Guarujá. E fez um Pix de doze mil reais pro Osmar, um dia antes da viagem — "pelos serviços", escreveu na mensagem, sem imaginar que aquilo ia virar prova em processo.
Faltava só uma coisa, e Vicente lembrou dela na hora certa: seis meses antes, depois de sumirem duas caixas de ferramentas caras do barco, ele tinha mandado instalar uma câmera pequena escondida perto do painel de comando — bem de frente pro convés de popa. Ninguém sabia da câmera. Nem Renata.
Quando os investigadores voltaram naquela quarta-feira e puseram, ao lado da foto de Vicente vivo, um pen drive com o vídeo gravado, Renata não teve mais o que negar. A imagem mostrava tudo: a corda, a âncora, o empurrão, o brinde de vinho. Ela ficou olhando a tela do notebook do delegado sem dizer uma palavra, as mãos apertadas uma na outra em cima do colo.
Diego foi preso naquela mesma noite, numa blitz perto da academia onde trabalhava, ainda de bermuda de treino. Osmar entregou o resto sozinho, contou tudo em troca de delação — o valor combinado, o horário, quem tinha comprado a corrente.
Vicente reapareceu publicamente três semanas depois, numa audiência em Cuiabá, andando com uma bengala emprestada porque machucara o joelho ao cair na água. Não olhou pra Renata quando ela foi levada, algemada, pela porta lateral do fórum. Só entregou ao seu advogado uma pasta com os documentos da chácara, dos caminhões e das contas — tudo em nome dele desde o primeiro dia, ele descobriu, porque nunca tinha assinado nenhuma comunhão de bens que Renata tanto insistia.
Duas semanas depois, ele foi ao cartório do bairro Goiabeiras sozinho, sem pressa, e assinou o pedido de divórcio unilateral — o processo já tinha sido aberto pelo próprio advogado enquanto ele ainda estava "morto". Trocou a fechadura da chácara no mesmo dia, entregou uma cópia da chave nova só pro Osmar não, pro filho do pescador que o salvou, um rapaz de vinte anos que passou a cuidar do lugar nos fins de semana. E vendeu o barco de dez metros — o mesmo barco — pra um comprador de Barão de Melgaço, por sessenta e três mil reais, sem nunca mais pisar nele de novo.







