Regina Bittencourt tinha treze anos de sala de aula quando aprendeu que setembro, no Brasil, também podia ser mês de vírus. Lecionava geografia na Escola Municipal Professor Ariovaldo Matos, num bairro de Cuiabá onde o calor de fim de inverno já beirava os trinta e oito graus e os ventiladores de teto giravam sem parar, espalhando mais poeira do que ar fresco.
Foi numa segunda-feira, dia 1º de setembro, que a diretora Marilene chamou os professores para uma reunião de emergência na sala dos fundos, aquela com o quadro de avisos cheio de bilhetes amarelados. Doze alunos do sexto ano tinham faltado na sexta-feira anterior, todos com o mesmo quadro: febre alta, dor no corpo, tosse seca. No fim de semana, mais oito casos apareceram entre os professores. A secretária Ivone, que também dava aula de português à tarde, ficou internada por precaução no Hospital Santa Rosa, com falta de ar.
— Não é gripe comum — disse Marilene, segurando um relatório impresso da Secretaria Municipal de Saúde. — É COVID de novo. E dessa vez está rápido.
Regina lembrou, na hora, do filho mais novo, o Theodoro, de nove anos, que estudava na mesma escola, na turma da manhã. Ele tinha nascido em 2017, quatro anos antes da pandemia estourar; cresceu ouvindo os pais falarem de máscara e álcool em gel como quem fala de guerra antiga, uma coisa dos livros. Agora a guerra antiga estava batendo na porta da sala dele de novo.
A escola fechou na terça-feira. Duzentos e quarenta alunos, de repente, sem aula. O prefeito anunciou, numa entrevista rápida ao lado do posto de gasolina Ipiranga da avenida principal, que seriam dez dias de suspensão para desinfecção completa do prédio e monitoramento dos casos. Dez dias. Regina fez as contas na cabeça: isso significava recuperar duas provas bimestrais atrasadas, reorganizar o calendário de outubro, e — o problema mais imediato — descobrir o que fazer com Theodoro enquanto ela e o marido, Cassiano, trabalhavam.
Cassiano era motorista de aplicativo, rodava um Fiat Argo prata que ainda devia doze parcelas no banco. Não tinha como simplesmente parar de trabalhar por dez dias; cada dia sem rodar era combustível, prestação e conta de luz atrasando junto. Foi aí que a irmã de Regina, a Denílsis, que morava duas quadras dali num sobrado alugado perto da igreja de São Benedito, se ofereceu para ficar com o menino de manhã, enquanto Regina cobria a tarde entre uma coisa e outra da escola fechada.
Só que Denílsis tinha os próprios dois filhos pequenos em casa, e no terceiro dia de "colônia de férias improvisada", como ela mesma chamava, ligou apavorada:
— Regina, o Theo tá com trinta e nove de febre. Eu já dei o antitérmico, mas ele tá mole, não quer nem mexer no celular.
Regina saiu correndo da reunião pedagógica online — porque, sim, mesmo com a escola fechada, a Secretaria de Educação exigia que os professores continuassem repassando conteúdo remoto, "para não perder o ano letivo", segundo o comunicado. Chegou na casa da irmã em doze minutos, o cabelo ainda preso com o lápis que usava pra corrigir provas.
Theodoro estava deitado no sofá, embrulhado num cobertor mesmo com aquele calor todo, os olhos fundos e um brilho estranho neles. Regina não tocou no rosto dele com carinho, nem sussurrou nada — pegou o termômetro digital da bolsa, testou de novo, e discou pro Samu enquanto já calçava o menino pra sair.
No Hospital Santa Rosa, o teste deu positivo em vinte minutos. Não era grave — o médico, um rapaz jovem chamado doutor Ewerton, garantiu que era uma variante que, na maioria das crianças, cursava como uma gripe forte — mas precisava de acompanhamento por causa da desidratação. Ficaram internados três dias. Regina passou as noites na cadeira reclinável do quarto 214, com o notebook aberto no colo, corrigindo redações do nono ano à luz do celular pra não acordar o filho, enquanto lá fora, no corredor, uma enfermeira arrastava o carrinho de medicação de porta em porta.
Foi durante essa internação que Regina descobriu, numa conversa com outra mãe no corredor, uma professora chamada Adalgisa, que a escola particular do outro lado da cidade — o Colégio Horizonte Verde, onde a filha da Adalgisa estudava — também tinha fechado, e que o dono da escola, um empresário chamado Rogério Salume, estava cobrando a mensalidade integral de setembro mesmo com os dez dias sem aula presencial nem remota decente.
— Ele mandou um vídeo no grupo dizendo que "força maior não isenta contrato" — contou Adalgisa, revirando os olhos. — Mil e oitocentos reais, pra assistir aula gravada de três anos atrás.
Regina guardou aquilo na cabeça. Não porque fosse problema dela, mas porque, voltando pra Escola Municipal Ariovaldo Matos, descobriu que a diretora Marilene estava enfrentando algo parecido: a Secretaria de Educação queria descontar o salário dos professores contratados temporários pelos dez dias parados, alegando que "aula não dada é aula não paga", mesmo sendo os próprios professores que tinham adoecido cumprindo a função.
No sexto dia de fechamento, com Theodoro já em casa, febril mas recuperando o apetite, Regina recebeu o contracheque adiantado por engano — ou não tão por engano assim. O valor vinha com um desconto de trezentos e quarenta reais, referente a "dias não letivos presenciais". Ela ligou pro RH da prefeitura três vezes. Na quarta, uma atendente cansada admitiu, baixinho, que "várias professoras estão reclamando da mesma coisa, mas o sistema já processou a folha".
Regina não gritou. Não bateu a porta. Foi até a gaveta do escritório de casa — aquele móvel de madeira clara que Cassiano tinha comprado usado no Facebook Marketplace — e tirou de lá a pasta azul onde guardava, havia onze anos, cada contracheque, cada contrato de trabalho, cada aditivo assinado desde que virou efetiva no concurso de 2015.
No dia seguinte, ainda com o filho de molho no sofá assistindo desenho baixinho na TV, ela foi ao Sindicato dos Trabalhadores em Educação, na rua Barão de Melgaço, entregou cópia de tudo, e formalizou uma denúncia coletiva junto com mais dezessete colegas que tinham sofrido o mesmo desconto — entre eles a própria diretora Marilene, que assinou o documento como testemunha e não como chefe.
O sindicato deu entrada num processo administrativo contra a Secretaria de Educação Municipal, pedindo a devolução integral dos descontos referentes aos dez dias de fechamento por surto epidemiológico, com base numa portaria estadual de 2023 que garantia estabilidade salarial em casos de força maior sanitária. Doze dias depois, o município recuou: devolveria o valor descontado na folha de outubro, e o secretário de educação, um homem chamado Anderson Padovani, teve que gravar um vídeo de esclarecimento reconhecendo "erro de interpretação da norma" — vídeo que Regina assistiu sentada na varanda, com Theodoro já correndo de novo no quintal, gritando pro cachorro do vizinho, o Bolinha, que latia sem parar do outro lado do muro.
Ela não comemorou. Fechou a pasta azul, guardou de volta na gaveta, e foi fazer o jantar — arroz, feijão, e aquele frango com quiabo que o filho tanto gostava. Na cozinha, a rádio local anunciava que as aulas voltariam na segunda-feira seguinte, com protocolo reforçado de ventilação e testes rápidos disponíveis na secretaria da escola.
Theodoro entrou correndo, ainda de pijama, perguntando se podia levar o caderno de geografia mesmo estando fechado há dez dias sem uso.
— Pode — disse ela, mexendo o feijão. — Ele tava só esperando.







