Não reparei nela por causa da sacola. Reparei porque ela discou três vezes para o mesmo contato antes de levar o celular ao ouvido. O visor estava trincado na ponta, e ela passava o polegar devagar, apagando o número sem querer. Da terceira vez, o contato atendeu.
— Filho? Eu tô na rodoviária. O ônibus atrasou… Eu sei. Eu sei que você falou. Mas chove muito, e eu tô cansada. Deixa eu dormir aí só essa noite.
Ela escutou calada. A banda de música pelo alto-falante anunciava a partida para Rio Verde, e eu precisei me inclinar um pouco para entender.
— Mas eu não pedi para morar. Uma noite. Só para não ficar aqui. Amanhã eu vou para a casa da sua tia.
A mulher fechou os olhos. Apertei o copo de café, que já estava frio, e fingi que procurava alguma coisa na bolsa. A gente tem dessas: não quer invadir a conversa, mas também não levanta e sai, porque sair parece pior.
Ela desligou sem se despedir. Ficou fitando o visor trincado. Depois mexeu de novo no aparelho.
— Neusa? Me atende, por favor. Não… não é dinheiro. Eu cheguei de viagem. Teu irmão não pode. Ele disse que a esposa tá nervosa. Eu só preciso de um canto.
Ouviu mais um pouco.
— Claro. Claro, eu entendo. Fica tranquila. Desculpa ter ligado.
Eu já tinha perdido a hora. Meu ônibus continuava escrito no painel como "atrasado", sem previsão. A mulher guardou o telefone, alisou a sacola de papel. Do lado de dentro, pelo rasgo do canto, dava para ver uma caixa de remédio e uma blusa de frio dobrada.
Foi então que ela pegou a sacola e foi até a lanchonete, pediu uma coxinha e um copo de água. Pagou com notas de vinte. A moça do caixa perguntou se ela queria nota fiscal, e ela respondeu:
— Não precisa. O dinheiro não me volta mesmo.
Sentei-me mais perto, sem querer. O ponto de ônibus para Trindade ficava ao lado, e eu podia muito bem me encostar ali enquanto esperava. Foi assim que vi quando o celular dela tocou de novo.
— Alô? Ué, Neusa… Sim, eu tô na rodoviária.
A filha devia estar falando rápido, porque a mulher levantou o rosto e fitou o letreiro das partidas, como se lesse alguma coisa que não estava escrita.
— Não. Não vou mais aí. Já peguei meu rumo.
Ela desligou. Não chorou, não gritou. Ficou sentada, mordendo a coxinha, com os olhos fixos na chuva que escorria pelas paredes de vidro. Eu pensei: essa mulher não tem para onde ir. E, logo, me arrependi de pensar, porque ver a miséria dos outros de longe dá uma vergonha parecida com culpa.
O ônibus para Anápolis foi anunciado. Levantei, peguei minha sacola, mas não fui para a fila. Fiquei perto da saída, observando. A mulher acabou de comer, limpou os dedos num guardanapo dobrado e abriu a bolsa. Tirou uma agenda pequena, daquelas de capa preta, da época em que se anotava telefone à mão. Folheou as folhas. Parou numa página, leu por um instante comprido, e então rasgou a folha inteira com um puxão seco.
Fez uma bolinha de papel e apertou-a na mão fechada. Levantou-se, foi até a lixeira e a deixou cair. Ficou parada ali, como se esperasse a chuva diminuir. A chuva não diminuía.
Foi nesse momento que o telefone dela tocou de novo — a terceira chamada em menos de vinte minutos. Ela olhou para a tela e, dessa vez, atendeu.
— Fala, meu filho.
A voz do outro lado subiu de tom, dava para perceber mesmo sem entender as palavras. A mulher segurou o parapeito de vidro da lanchonete com a mão livre, os dedos brancos de tão apertados.
— Eu não vou incomodar mais ninguém. Já falei com a Neusa. Já entendi o recado dos dois.
Ela ouviu mais um pouco, e a voz dela, quando voltou, saiu mais dura do que qualquer coisa que eu tinha escutado a noite inteira:
— Não. Desliga aí. Pode desligar. Eu me viro.
Foi ela quem cortou a ligação. Não jogou o celular, não bateu em nada. Só desligou, guardou o aparelho na bolsa com as duas mãos, devagar, como quem guarda uma faca depois de cortar um pão. E ficou ali, respirando fundo, olhando para a lixeira onde tinha jogado a bolinha de papel.
Peguei meu celular, por instinto, como se fosse receber uma mensagem. Só para não ficar ali parada de braços cruzados. Quando olhei de novo, ela tinha ido ao guichê da viação. Dava para ouvir o moço dizer:
— Para Montes Claros? Só amanhã, às seis e meia. Hoje não tem mais.
Ela pediu então o bilhete para às seis e meia. Pagou em reais. O moço pediu documento. Ela abriu a bolsa, tirou um RG amassado, daqueles antigos, com foto cor-de-rosa. Eu não vi o nome. Vi a data de nascimento: 1958. Fiz as contas de cabeça, sem querer — sessenta e seis anos.
Enquanto ela guardava o troco, fui até a fila do meu ônibus. Mas, antes de passar pela catraca, ela falou comigo.
— A senhora é daqui?
— Sou. Quer dizer, de Anápolis. Tô sempre por aqui.
— Onde será que tem um hotel barato, perto? Só para uma noite.
Eu indiquei o hotel de beira de estrada, passando a passarela. Ela agradeceu e saiu andando devagar, a sacola de papel balançando no braço.
Fui para meu ônibus. Sentei na janela. A chuva continuava. O limpador do para-brisa fazia aquele barulho seco, e o rádio tocava um modão que falava de casa, de mãe, de estrada. Não prestei atenção na letra. Só fiquei pensando naquela mulher de sessenta e seis anos atravessando a passarela com uma sacola de papel e um bilhete para Montes Claros no bolso.
Meu irmão mora em Goiânia há doze anos, perto da rodoviária, e trabalha de plantonista numa farmácia que fica de olho no movimento da região. Liguei para ele três dias depois, quando finalmente voltei à cidade para resolver um documento, e contei a cena. Foi ele quem me levou até o hotel da passarela, só para eu ver com meus próprios olhos, e foi ele quem me mostrou o jornal do bairro, que tinha saído naquela mesma semana.
A notícia era pequena, quase perdida entre um anúncio de supermercado e outro de aluguel. Uma senhora de Montes Claros, identificada pelas iniciais no boletim, tinha sido encontrada por um funcionário da limpeza sentada havia duas horas na sala de embarque, o bilhete das seis e meia ainda fechado na bolsa, sem forças para levantar e caminhar até o portão. Tinha passado mal, o coração, disseram. Foi levada para o hospital municipal e, dias depois, recebida por uma prima que morava no bairro Campinas e de quem ninguém tinha lembrado de avisar.
Fiquei olhando aquela notícia um tempo, meu irmão do lado, o cheiro de remédio da farmácia ainda na roupa dele. Pensei na bolinha de papel na lixeira, e perguntei se dava para voltar lá, se ainda estaria no lugar. Ele disse que a limpeza da rodoviária é feita de hora em hora, que eu sabia bem que não ia sobrar nada.
Fomos assim mesmo. A lixeira tinha sido trocada, um saco novo, vazio. Do lado de fora, presa entre o metal e a parede, achei um pedacinho de papel, só a ponta, como se tivesse escapado quando ela amassou a folha inteira. Tinha uma letra pequena, tremida: "…vender a casa da Rua Bandeira antes que ele…" O resto tinha sumido com a chuva.
Guardei o pedaço de papel na carteira. Não sei o nome dela até hoje, nem se a Rua Bandeira fica em Montes Claros ou em outro lugar qualquer. Só sei que, quando espero ônibus naquele mesmo banco amarelo, olho para o guichê da viação e ainda escuto o barulho seco daquela folha se rasgando.







