O papel que ela não assinou

A porta da salinha da noiva estava entreaberta e eu via a minha mãe pela fresta, com o papel dobrado na mão. Não devia ter contado que a Letícia não ia assinar. Mas contei. E agora estava ali, parado, sentindo o cheiro de laquê e de flor de laranjeira, enquanto minha mãe, dona Sueli, estendia a folha branca sobre a mesinha, ao lado da caixinha das alianças.

— Assina, Letícia. — Minha mãe tinha a voz mansa de quem está cobrando, não pedindo. — Faltam quinze minutos pra assinar o livro. Não vamos estragar o dia.

Letícia estava de costas, ajustando a coroa de flores no cabelo. O vestido era branco, simples, mas eu sabia quantas madrugadas ela tinha passado emendando o acabamento na Singer da mãe dela. Eu gostava daquilo, da teimosia dela. Até minha mãe apontar que aquela teimosia ia me deixar sem nada.

A Letícia trabalhava em um ateliê na Rua do Ouro, no centro. Fazia vestido de noiva, consertava roupa, desmanchava e refazia. Eu vendia carro em uma concessionária na Avenida Tereza Cristina. A gente se conheceu quando ela foi comprar um Gol usado que eu tinha anunciado na OLX. Ficamos horas conversando sobre banco de couro e acabamento de porta. Três anos depois, ela tinha a própria quitinete na Santa Tereza, comprada em leilão de banco, reformada com as mãos dela. A parede da sala tinha um tijolinho aparente que ela mesma assentou. O banheiro era apertado, mas dava pra ver que cada centímetro tinha sido pensado.

Minha mãe nunca gostou da Letícia. Dizia que mulher que vive de agulha e tesoura era orgulhosa, que não ia cuidar de mim. Mas não era isso. Era medo. Minha mãe criou a mim e ao meu irmão sozinha, depois que meu pai morreu num acidente na BR-381. Ela tem artrose, sobe a ladeira da Venda Nova com passos curtos, resmungando, e eu sou o único filho que sobrou — o outro foi pro Paraná e não atende o celular. Mãe sempre dizia: "Edu, se você casar com essa moça, ela vai te tirar de mim." Eu cansava de brigar. Então fechei com o plano dela: a gente casa, a Letícia vende a quitinete, compra uma casa maior no Santa Efigênia, no meu nome. Minha mãe mora com a gente. Todos ganham.

— A gente já conversou sobre isso, Lê. — Tentei falar baixo, mas a voz saiu fina. — Você e eu. A casa grande. Sua mãe pode ir pra lá também.

A Letícia girou e me encarou. Não gritou. Só tirou um grampo do cabelo e deixou cair na pia.

— A gente conversou que você ia morar comigo. Que sua mãe ia ficar no apartamento dela. E que a minha quitinete não era moeda de troca.

Minha mãe deu um passo, apoiou a mão na parede. A perna esquerda tremia um pouco — ou era de nervoso, ou da dor.

— Escuta aqui, menina. Eu não vou morar sozinha. Meu filho é tudo que eu tenho. Se você não assina, é porque não ama ele.

Aí eu devia ter falado: "Mãe, sai." Mas não falei. Fiquei com os olhos no tapete branco, nas pétalas de rosa que tinham caído no chão. Porque, no fundo, eu também queria que ela assinasse. Queria que tudo se resolvesse sem briga, sem perda. Queria a casa, o carro novo, a mãe bem. Queria a Letícia sem a parte difícil da Letícia.

Letícia puxou o véu e dobrou passando a mão demorada no tecido. Depois empilhou os grampos em cima da bancada — um por um, sem pressa.

— Eu não assino. — Ela repetiu, agora com o queixo apontado pra minha mãe, não pra mim. — A sua caneta pode voltar pro banco. E o seu filho pode voltar pra sua casa.

Minha mãe tentou falar, mas a Letícia já tinha tirado o anel de noivado. Colocou em cima da caixinha das alianças, pegou a bolsa e abriu a porta.

— Letícia, espera. — Eu fui atrás, tropeçando na cadeira. — Você vai fazer isso na frente de todo mundo?

Ela não respondeu. Atravessou o corredor, passou pela mesa do bolo, pelo arranjo de flores. As convidadas já estavam sentadas, arrumando o sapato. A mãe dela levantou-se da cadeira, mas a Letícia nem parou. Saiu pela porta lateral do salão, direto pro estacionamento, e o salto quebrou no asfalto rachado. Ela tirou os dois sapatos, carregou um em cada mão e acenou para um táxi que passava na avenida.

Eu corri atrás, gritei o nome dela, mas o táxi já tinha arrancado. O motorista jogou a seta pra esquerda e sumiu na curva. Minha mãe apareceu na porta do salão, chorando, chamando os convidados pra arrumar tudo.

A festa morreu. Minha mãe chorou no banheiro, disse que eu era um fraco, que a Letícia nunca me mereceu. Eu fiquei no salão, pagando a orquestra, mandando desmontar as mesas. O bolo nunca foi cortado. A maquiagem da Letícia ficou na pia, um estojo rosa aberto, e eu joguei no lixo junto com as pétalas.

À noite, fui até a quitinete. Ela morava no segundo andar, numa rua sem saída da Santa Tereza. A lâmpada do corredor estava queimada, o cachorro do vizinho latiu, e eu enfiei a chave na fechadura. A chave nem entrou até o fim — travou no meio, forçada contra um metal que não reconhecia. Passei o dedo em volta do buraco e senti: a fechadura era outra, o cromado ainda liso, sem a marca de tinta desbotada que sempre teve ali. Letícia tinha trocado a fechadura inteira.

Ainda bati na porta, mais por teimosia do que por esperança. Foi a porta da frente que abriu, a da vizinha.

— Quem é? — A voz era da dona Zilda.

— Sou eu, Eduardo.

Ela saiu com um saco plástico branco nas mãos.

— A Letícia passou aqui de tarde. Pediu pra te entregar isso. E pra mim avisar que você não mora mais aqui.

Ela me entregou o saco. Dentro: minha escova de dente, dois pares de meia, o carregador do celular. E um envelope pardo. Abri ali mesmo, no corredor, com o saco apoiado na porta.

Dentro do envelope tinha o meu anel — o que eu usava, o de noivado — e um comprovante de transferência bancária. A conta conjunta que a gente abriu na Caixa tinha sido fechada. O saldo de R$ 4.700,00 — o dinheiro da reserva da festa — tinha ido para a conta da mãe da Letícia, com um TED. No verso do comprovante, escrito com a minha caneta, a que eu tinha dado pra minha mãe, estava rabiscado:

"Devolvi o que era seu. A chave você pode jogar fora. A casa não é sua."

Minha mãe, que tinha ido comigo, leu por cima do meu ombro e disse qualquer coisa sobre orgulho. Eu não escutei. Só fiquei encarando o número do comprovante, o R$ 4.700,00, a fechadura nova que eu nunca mais ia abrir.

No corredor, o cachorro parou de latir. A lâmpada seguiu apagada. Dona Zilda voltou pra dentro. Minha mãe puxou meu braço. E eu virei a chave inútil na palma da mão, apertando até doer.

Desci a escada, minha mãe reclamando do joelho. Na rua, passou um carro de som com um pagode alto, as caixas trepidando na carroceria. Eu não joguei a chave fora. Guardei no bolso da calça, junto com o comprovante. Até hoje, quando ouço pagode, lembro daquele carro de som se afastando na esquina — e da sensação de ficar parado na calçada, com a chave de uma casa que já não era minha.

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Sixty & Me
O papel que ela não assinou