# O papagaio que fazia pedidos no aplicativo

Meu nome é Ivone Ferraz, sou zeladora de um prédio na Rua dos Pinheirais, em Curitiba, há vinte e três anos. Nessa profissão, a gente acha que já viu de tudo — vazamento no terceiro andar, casal brigando que dá pra ouvir através da parede, o gato da Dona Terezinha que se enrosca duas vezes por mês na grade do lixo. Mas a história do papagaio da Débora Aguiar, no segundo andar, fundos, essa eu ainda conto pros moradores novos quando chegam.

Débora morava sozinha com o Gaspar, um papagaio-cinzento-do-congo que ela tinha adotado depois do divórcio, cinco anos antes. Trabalhava como enfermeira no plantão noturno do hospital, então o bicho passava horas e horas sozinho no apartamento, só com a companhia de um alto-falante inteligente em cima da bancada da cozinha. Presente da irmã dela, "pra ajudar a organizar a lista de compras" — a ironia, a gente só ia descobrir depois.

Eu cuidava da correspondência e das encomendas, então percebi logo que tinha coisa estranha acontecendo. Normalmente a Débora recebia uma ou duas entregas por semana, quase sempre remédio de farmácia ou livro. Só que, a partir de uma certa terça-feira de julho, os pacotes começaram a se empilhar na porta dela como nunca. Um dia, uma caixa com vinte rolos de papel higiênico. No outro, três melancias — no meio do inverno, aquilo já tinha me chamado atenção. Depois, uma pipa. Uma lâmpada avulsa, sozinha dentro de uma caixa grande demais pra ela. Passas em pacotes de quilo.

Comentei com ela numa manhã, entregando um pacote que cheirava a queijo mesmo por dentro da embalagem.

— A senhora tava esperando queijo coalho, Débora?

Ela olhou a etiqueta, sem entender nada.

— Eu não pedi nada disso.

— Essa semana já é a terceira coisa esquisita que eu trago pra senhora.

Ela deu de ombros, achando que era erro de entrega, algum vizinho que tinha errado o endereço. Mas os pacotes continuavam chegando, sempre no nome dela, com o cartão dela sendo debitado toda vez — ela me contou isso depois, numa noite em que eu fazia minha ronda das lixeiras e ela fumava um cigarro na porta, ainda de jaleco.

— Fui olhar meu histórico de pedidos, Ivone. Tem coisa ali que eu nunca digitei. Um berimbau. Um litro de sorvete de café. Três maços de brócolis.

— A senhora acha que invadiram sua conta?

— Foi o que pensei no começo, sim. Até troquei a senha duas vezes.

Foi numa sexta-feira à noite, chegando mais cedo do que o esperado por causa de um plantão cancelado, que ela entendeu tudo. Me contou a cena no dia seguinte, ainda meio abalada, tomando um cafezinho na minha portaria.

Ao abrir a porta, ela ouviu a voz do alto-falante lá na cozinha, aquele tom neutro e meio robótico que a gente conhece bem.

— "Adicionei melão à sua lista."

E o Gaspar, empoleirado no encosto de uma cadeira, repetindo, com uma entonação estranhamente parecida com a dela mesma:

— Assistente, adiciona melão na lista.

Débora ficou parada no corredor de entrada, a bolsa ainda no ombro. O bicho começou de novo, com outra frase, dessa vez pedindo pra adicionar mirtilo. O alto-falante soltou o bipezinho de confirmação. O Gaspar virou a cabeça pro lado, satisfeito com o próprio feito, como se soubesse muito bem o que tinha acabado de fazer.

Ela me disse que ficou quase um minuto sem reagir, de tão absurdo que era ver aquilo ao vivo. Depois caiu na risada, sozinha no corredor, uma risada meio nervosa, daquelas que a gente dá quando percebe que achou que tava enlouquecendo à toa.

O que me chamou atenção, no relato dela, foi um detalhe que ela repetiu duas vezes: o Gaspar não ficava só imitando qualquer coisa. Ele tinha decorado as frases que davam certo, as que faziam o alto-falante responder, e soltava elas quando ficava entediado — geralmente por volta das cinco da tarde, horário em que a Débora costumava chegar do mercado e dar pedacinhos de maçã pra ele.

Ela acabou desligando o microfone do aparelho antes de sair pro trabalho, e passou uma noite inteira revisando os pedidos dos últimos dois meses com o atendimento ao cliente, no telefone, dentro do meu depósito de lixo porque o sinal pegava melhor ali do que no segundo andar. Devolveram pra ela quase quatrocentos reais em compras que ela nunca tinha pedido — berimbau incluso, que ela acabou dando de presente pro filho da padeira da esquina.

De lá pra cá, o alto-falante fica desligado o dia inteiro. O Gaspar, esse, arrumou outra graça pra se distrair: imita a campainha do interfone, e duas vezes por semana eu subo à toa porque a Débora acha que alguém tocou. A gente ainda ri disso, os dois, na porta do apartamento — ela com o cigarro, eu com meu molho de chaves que no fim do dia pesa uma tonelada.

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Sixty & Me
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