O ônibus da Catarinense parou na rodoviária de Florianópolis às seis e quarenta da manhã. Assim que a porta abriu, o cheiro de maresia entrou com um vendedor de caldo de cana. A Laura pegou a mochila e desceu com as pernas duras de doze horas de estrada. Fez baldeação em Joinville, dormiu sentada, acordou com o sol batendo no vidro.
Ela não queria estar ali. Durante três anos, tinha trocado de calçada quando sentia cheiro de sal. Agora, parada perto do guichê, com a passagem de volta no bolso, repetia a frase da psicóloga:
— O mar não foi feito para cobrar nada de você.
Ainda assim, a mão tremia ao pegar o papel do hotel.
O quarto ficava na terceira rua depois da ponte. Não era pousada bonita. A dona empurrou a chave por baixo da janela de vidro e avisou que o chuveiro elétrico pingava. A Laura subiu com a bolsa, abriu a janela para o lado da lavanderia e ouviu uma televisão ligada num culto. O som baixo ficava repetindo “aleluia” como se fosse um pano molhado no ar.
Ela deitou na cama e ficou olhando para a lâmpada que piscava. Aí lembrou do rafeiro magro que vira no posto de gasolina em Garuva, dormindo perto da lixeira. O bicho nem levantou a cabeça. Ela tinha ficado com pena.
Não dormiu.
Pela manhã, desceu para a praia da Barra da Lagoa com o vestido por cima do maiô. O sol ainda estava frio atrás da serra. Tirou as sandálias na areia e ficou parada, respirando fundo. O mar avançava e recuava num barulho que ela conhecia demais.
Foi andando sem pressa. A água bateu no tornozelo, gelada. Ela apertou os punhos. Depois deu mais um passo. Depois outro. A areia afundava sob o peso dela.
Foi aí que eu vi.
Primeiro, só as costas de um homem. Ele estava agachado perto de uma menina de três anos, mostrando uma concha. A Laura parou. A menina riu e jogou areia para cima. O homem levantou e sacudiu a areia do cabelo.
O gesto.
O jeito de a mão dele subir pela testa e puxar os fios para trás.
Ela sentiu uma fisgada no estômago que a dobrou ao meio. O coração passou a bater na garganta, como se quisesse sair. Fez força para respirar. Era parecido demais. O modo como ele inclinava o tronco para a esquerda, como se uma perna estivesse sempre mais cansada.
A Laura andou para frente, igual a uma pessoa que esquece o próprio corpo. O vento trouxe a risada do homem. A menina correu até ele e pediu colo.
— Rafa.
Ele não ouviu. A Laura falou de novo, mais alto:
— Rafa!
O homem virou a cara.
Foi como se o dia inteiro parasse. Atrás dele, uma prancha de surfe caiu na areia. Alguém gritava com uma criança. Uma lancha passou ao longe.
A cara dele era a mesma. Tinha o corte na sobrancelha, o mesmo queimado de sol no nariz. Só que a expressão era de quem vê uma desconhecida maluca.
— Oi? — ele disse, com a menina no colo.
A Laura ficou a dois passos. A boca seca. As mãos congeladas.
— Rafa, sou eu. A Laura.
Ele franziu a testa.
— Acho que a senhora me confundiu.
A palavra “senhora” atravessou o peito dela como se fosse um anzol puxado para trás.
A menina escondeu o rosto no pescoço dele. A Laura viu a pulseira de prata no pulso dele — fina, gasta por água salgada. Ela reconheceu. Era a mesma que ele nunca tirava. Até no chuveiro, até no hospital. Ele só tirava para jogar bola, porque doía no braço.
A mulher veio de trás. Tinha uma bolsa a tiracolo e um chapéu de palha na mão. Chegou manso, mas os olhos dela estavam em alerta.
— Tudo bem? — perguntou ao homem.
— Essa moça me confundiu com alguém, Marcela.
A Marcela passou a mão no braço dele e depois na perna da menina.
— Você está precisando de ajuda? — disse para a Laura, num tom baixo, quase de cuidado.
A Laura não conseguiu responder. Ficou ali, o vento levantando o vestido, a areia grudada no tornozelo.
— Desculpa — conseguiu falar. — Eu… Achei que conhecia.
Virou as costas e voltou para o hotel sem sentir o chão.
Trancou a porta e sentou no chão do banheiro, encostada na parede fria. Olhou para as próprias mãos. Elas não paravam de tremer.
Passou a tarde inteira sentada na cama, com o celular sem bateria. Pensou em telefonar para a mãe, mas não saberia explicar. Pensou em ir embora. Pensou em ficar. Pensou no rafeiro magro do posto de gasolina.
Às seis da tarde, bateram na porta do quarto.
A Laura olhou pelo furo da fechadura. Era a Marcela.
Ela abriu.
Marcela estava descalça, com o vestido escuro e o cabelo preso num coque torto. Não parecia ter dormido bem. Nem ter vindo por acaso.
— Posso entrar um pouco? — perguntou.
A Laura fez que sim.
Marcela sentou na beirada da cama. A Laura ficou de pé, encostada na escrivaninha. O quarto era pequeno, com um ventilador de teto com três pás tortas. Nenhuma das duas sabia por onde começar.
— O homem na praia — começou Marcela. — Ele não te reconheceu. E isso te assustou mais do que se ele tivesse te visto.
A Laura não disse nada.
— Há três anos, o mar levou o seu marido. — A voz de Marcela saiu inteira. — As buscas pararam. O corpo nunca apareceu. Você ficou com a dor e com o silêncio.
A Laura encarou a ponta dos próprios dedos.
— Ele vive — continuou Marcela. — Mas acordou num posto de saúde em Garuva, sem lembrança nenhuma. Nem nome. Nem rosto. Nem que gostava de café sem açúcar.
A Laura puxou o ar devagar.
— Quem cuidou dele?
— Eu. Era técnica de enfermagem no turno da noite. Ele chegou com hipotermia, uma fratura no braço, a cabeça inchada. Ficou três semanas sem falar. Depois começou a conversar. Perguntava se era normal não lembrar do próprio bairro.
Marcela pegou o elástico do pulso e prendeu o cabelo de novo.
— A gente não tinha nenhum documento. Nenhum exame ligava ele a ninguém. O estado deu um nome provisório. Tchau? Não. Deram a ele o nome de Rafael? Não sei como foi. Na verdade, chamaram ele de Vinícius, porque era o nome que estava escrito numa etiqueta de mochila perto do corpo.
A Laura repetiu:
— Vinícius.
— Eu o conheci como Vinícius. Para ele, o nome verdadeiro morreu na água.
A Laura passou os dedos pela correntinha pendurada no pescoço. A medalha de São Jorge estava quente.
— Por que você veio aqui?
Marcela puxou uma toalha de papel da bolsa e ficou dobrando.
— Porque eu ouvi você dizer “Rafa” na praia. Porque vi tua cara. E porque o Vinícius nunca foi teu para ser tirado. Ele só não sabia que você existia.
O ventilador fez um estalo. Lá fora, uma moto arrancou com escapamento aberto.
— Eu vim te contar — disse Marcela. — E vim te pedir que, se quiser, converse com ele uma última vez. Mostra as fotos. Conta a história. Ajuda a fechar.
A Laura ficou muito tempo quieta.
— Ele sabe que era casado?
Marcela meneou a cabeça.
— Sabe desde ontem à noite. Eu contei. Ele ficou sentado na areia até o posto da Barra fechar. A Isadora dormiu no colo dele.
Elas se encontraram na manhã seguinte num café de quiosque, perto dos barcos de turismo. O Vinícius chegou primeiro, com a Isadora no colo e uma mochila de corda no ombro. A Marcela ficou numa mesa de trás, mexendo no celular, mas acompanhando tudo.
A Laura se sentou de frente para ele. Tirou da bolsa uma pasta amarela. Abriu e colocou em cima da mesa.
Dentro, as fotos.
O casamento no sítio da mãe, em Imbituba. A primeira casa, com a cozinha pintada de verde. A viagem para o Beto Carrero, com ele rindo de uma fila gigante. A foto do negócio que eles queriam abrir: um restaurante de peixe na praia do Rosa, chamado “Sereia de Folha”.
Ele pegava as fotos com a mão firme. Não tremia.
— Essa é você? — perguntou, apontando para a noiva.
— Sim.
— E esse aqui sou eu.
— Sim.
Ele virou uma foto do casal na pedra do Campeche. O vento levantava o vestido dela. Ele estava com a camiseta do Avaí.
— Eu torcia para o Avaí?
A Laura riu baixo.
— Brigava com o meu pai, que era Figueirense.
Ficaram em silêncio um instante. A filha Isadora pediu suco de maracujá. O pai pediu um café sem açúcar para ele e água de coco para a Laura.
A Laura contou da firma. Contou dos planos. Contou que ele deixava a escova de dente na pia e nunca tirava a toalha molhada da cama.
Contou do bebê.
Quando a palavra “gravidez” saiu, o Vinícius parou de mexer no guardanapo.
— Você estava grávida?
— Sim.
Ela respirou.
— Perdi. Umas semanas depois do desaparecimento. O corpo não aguentou.
Ele fez força para não desviar o rosto. As narinas dele afundaram.
— Eu não sei o que dizer.
— Ninguém sabe.
O garçom trouxe o suco. A Isadora subiu no banco e derrubou um pouco na mesa. O pai limpou com o paninho, sem tirar os olhos da filha.
A Laura ficou olhando para aquilo. A pasta amarela aberta entre os dois.
— As fotos não fazem sentido para você? — perguntou.
Ele negou com o rosto.
— Parece um filme. Eu não chego a ser o personagem. Só um figurante assistindo.
A Laura apertou a alça da bolsa.
— Eu também me senti assim por três anos. Como se a minha vida fosse de outra pessoa.
A Isadora cutucou o pai:
— Papai, quero ir no barco.
Ele respondeu baixo:
— Já vamos, amor.
A Laura se levantou devagar, empurrando a cadeira para trás.
— Acho que viemos aqui para isso. Para eu entender que você não me deixou. Só não voltou.
Ele levantou também. Ficou sem saber onde pôr as mãos.
— Me perdoa.
A Laura balançou a cabeça.
— Não tem perdão, Vinícius. Perdão precisa de culpa. Você não tem.
O homem nunca mais falou o nome antigo. A Laura também não.
Quando a Laura saiu do café, a Marcela veio até ela. Ficaram uma de frente para a outra, sob o toldo listrado do quiosque.
— Obrigada — disse Marcela. — Ele precisava disso.
A Laura apertou a alça da bolsa.
— Eu também.
Naquela noite, a Laura não voltou para o hotel. Andou até a praia, tirou as sandálias e entrou na água até os joelhos. O mar estava quente, diferente da manhã. A lua saiu de trás do morro.
Ela ficou com a água batendo na coxa. Deixou a pasta amarela na areia, em cima da toalha. O vento veio e abanou as páginas.
Então decidiu.
Na manhã seguinte, antes de pegar o ônibus de volta, a Laura entrou numa agência do Itaú no centro de Florianópolis. Carregava a pasta amarela. No balcão, tirou de dentro um extrato antigo, do tempo em que o nome “Rafael” ainda aparecia nas telas.
— Eu quero encerrar essa conta e dividir o valor.
A atendente perguntou se ela tinha os documentos.
— Tenho. São dois titulares.
A Laura assinou três vias. Transferiu metade para a conta do Vinícius, cujo número a Marcela tinha anotado num papel de bloco. Sessenta mil reais. Depois preencheu um envelope amarelo com o comprovante e o extrato.
Passou na padaria da esquina, comprou um pão de queijo e comeu em pé no balcão. O relógio do terminal marcava onze e meia.
Ela caminhou para a praia da Barra da Lagoa pela última vez.
O Vinícius estava com a Isadora perto das pedras, tentando montar um barquinho de latinha. A Marcela estava sentada na areia, lendo um livro de bolso.
A Laura chegou sem pressa. Estendeu o envelope.
— O que é isso? — perguntou ele, sem pegar.
— A metade do que a gente juntou para o restaurante. Sessenta mil reais. Agora é seu.
Ele deixou a latinha cair na areia.
— Eu não posso.
A Laura pegou a mão dele e fechou os dedos sobre o envelope. Depois soltou.
— Pode sim. Era teu antes de o mar te apagar. E é teu agora.
A Isadora veio correndo e perguntou se o envelope tinha doce.
— Não, filha. — Ele ficou de cócoras, na altura da menina. — Mas tem papel.
A Laura se afastou sem acenar. Não precisava.
No terminal, subiu no ônibus das catorze. Apertou a bolsa no colo e fechou os olhos antes de o motor esquentar. Não foi para dormir. Foi para não ver a cidade ficar para trás e, pela primeira noite em três anos, não sonhar com o mesmo mar chamando um nome.







