Felicidade que ninguém viu chegar

Eu trabalho havia dezesseis anos como recepcionista do Buffet Jardim das Palmeiras, ali na Barra da Tijuca, e já vi de tudo: noiva chorando no banheiro dez minutos antes de entrar, sogra brigando por causa de lugar de mesa, até briga de irmãos por causa de herança no meio da festa de quinze anos. Mas aquele domingo de julho eu não esqueço nunca.

Era um aniversário de sessenta anos, o do seu Osvaldo Guimarães, dono de uma rede de postos de gasolina na Baixada. Salão cheio, mais de cem convidados, toalha branca, arranjo de rosa e copo-de-leite em cada mesa, e uma churrasqueira industrial que eu sentia o cheiro lá da recepção. Quem organizou o evento foi o filho dele, o Rogério, que tinha acabado de anunciar pra família inteira que "finalmente" tinha comprado aquela chácara enorme onde a gente estava. Eu escutei ele dizendo isso três vezes pro mesmo grupo de parentes, feito disco riscado.

A esposa dele, uma mulher de uns trinta e cinco anos chamada Marisa, estava sentada com as duas filhas numa mesa lá no fundo, quase encostada na cerca que dava pro pomar. Longe da mesa principal, onde o aniversariante e os irmãos brindavam com uísque. Eu reparei porque fiquei mais de uma hora circulando com bandeja de espetinho e via direitinho quem sentava onde.

A sogra, dona Zuleide, vestida de linho bege, brinco de pérola, aquele tipo de sorriso que já vi em muita gente rica e que nunca sobe até os olhos — ela chegou na mesa da nora sem pedir licença e puxou o prato das duas meninas. A mais velha, que devia ter uns oito anos, ficou parada com o garfo no ar. A pequena, de uns cinco, ficou olhando pro pedaço de peixe que sumiu do prato dela.

— Essa comida boa não é pra menina que não vai carregar o sobrenome da família — falou dona Zuleide, na maior calma, na frente de todo mundo.

Eu estava a três metros, ajeitando os guardanapos de pano numa mesa vizinha, e ouvi cada palavra. A caçula perguntou baixinho se podia comer mais um pouco. A avó riu seco e disse que comida boa era prêmio pra quem dava neto homem pra continuar o nome. Ninguém na mesa dos tios disse nada. Um primo ficou mexendo no celular feito quem não escutou nada.

Aí dona Zuleide pegou uma bandeja de isopor — daquelas de churrascaria mesmo, plástico — com sobra de arroz grudado, farofa ressecada e um resto de maionese, e botou na frente das duas crianças. Empurrou com tanta força que respingou molho vermelho no vestido amarelo da menor e sujou o rosto da mais velha.

A mais velha não chorou. Isso que me doeu, porque eu tenho uma neta da mesma idade. Ela só olhou pro pai, esperando ele levantar.

O Rogério, da mesa principal, ergueu a taça de espumante e gritou lá de longe:

— Marisa, para com esse drama! Minha mãe sabe resolver essas coisas. Deixa eu aproveitar minha festa hoje, pelo menos.

Minha festa. Não disse "nossas filhas". Não disse "minha mãe passou dos limites". Nada.

Eu já ia até a mesa oferecer pra trocar o prato, mas antes que eu chegasse, a Marisa já tinha pegado um guardanapo e estava limpando o rosto da filha mais velha com um cuidado que parecia gente catando caco de vidro do chão pra ninguém se cortar. Depois limpou o vestido da caçula, devagar, sem gritar, sem chorar. Levantou as duas no colo — bom, a pequena no colo, a grande pela mão — e olhou pra sogra uma última vez.

— Aproveite bem sua mesa principal — falou, num tom que nem parecia bravo. — Às vezes sobra não é o que fica no prato. É o que fica nas pessoas.

O Rogério levantou da cadeira, vermelho, gritando que ela não ia fazer papel dele na frente da família toda. Ela nem respondeu. Passou reto por mim, que segurava a bandeja parada feito boba, e foi andando com as meninas em direção ao portão, enquanto a banda continuava tocando forró e todo mundo fingia estar olhando pra outro canto.

Eu tinha o turno até as onze da noite ainda, então fiquei. E foi por isso que vi o resto.

Porque eu não sabia, ninguém ali sabia, que aquela mulher de vestido simples, sentada na pontinha do salão, era sócia majoritária de uma incorporadora chamada Litoral Norte Empreendimentos, com obra em Niterói, em Búzios e num terreno enorme perto de Angra. O Rogério sempre contou pra família que ela dava plantão em imobiliária, ganhando salário mínimo mais comissão. A dona Zuleide, nas festas de fim de ano, dava de presente esfregão e avental "de brincadeira" pra ela, enquanto as outras noras ganhavam bolsa de grife. Vivia falando que Marisa devia agradecer o Rogério não ter arrumado outra, já que ela só deu duas filhas mulher.

E ninguém sabia também — isso eu só fui entender depois, porque a filha do buffet, que trabalha comigo na copa, ficou de olho no que aconteceu — que aquela chácara toda, com churrasqueira industrial e piscina de borda infinita, não era do Rogério coisa nenhuma. Era registrada em nome da empresa da Marisa. E que na bolsa dela, dobrada num envelope pardo, tinha a cópia de uma nota promissória de um milhão e quatrocentos mil reais, assinada de próprio punho pelo marido, referente a um empréstimo que ela tinha feito pra ele quitar dívida do posto de gasolina do pai, dois anos antes.

Isso eu só fiquei sabendo trinta minutos depois, quando ela voltou.

Voltou sozinha. Tinha deixado as meninas com a irmã, que estava esperando lá fora com o carro ligado — um Corolla prata, parado em cima da grama, motor ligado, ar-condicionado no talo pras crianças não passarem calor. Ela entrou de novo pelo portão principal, sem pressa, segurando uma pasta fina de plástico transparente. Eu larguei a bandeja no balcão e fiquei olhando, porque instinto de gente que trabalha com festa é sempre farejar quando alguma coisa está prestes a virar.

Ela foi direto pra mesa principal. Parou na frente do sogro, o aniversariante, que já estava com a gravata afrouxada e o rosto vermelho de uísque.

— Seu Osvaldo, feliz aniversário — falou, e colocou a pasta em cima da toalha branca, do lado do bolo de sessenta andares que ainda nem tinha sido cortado. — Antes de eu ir, preciso avisar uma coisa pro senhor e pro Rogério. Amanhã de manhã, às nove horas, meu advogado vai protocolar a execução dessa nota promissória. Um milhão e quatrocentos mil reais, mais correção. O prazo de pagamento venceu há quatro meses.

A dona Zuleide levantou da cadeira, boca aberta, sem entender.

— Que nota promissória? Do que você está falando, menina?

— Do dinheiro que emprestei pro seu filho pagar a dívida do posto, dona Zuleide. Está tudo documentado, com firma reconhecida em cartório. E, já que estamos falando de família e de quem "carrega o sobrenome" — puxou uma segunda folha da pasta, um documento de registro de imóvel — essa chácara aqui, onde tá rolando a festa, é da minha empresa. Vocês estão fazendo aniversário de sessenta anos num imóvel que não é de nenhum Guimarães. É da Litoral Norte Empreendimentos. Minha empresa.

O Rogério ficou de pé tão rápido que derrubou a cadeira. Foi até ela tentando abaixar a voz, pedindo pra não fazer isso na frente de todo mundo, que ele resolvia, que ela tinha que confiar nele mais uma vez. Ela nem levantou o tom.

— Você teve onze anos pra confiar em mim primeiro, Rogério. Eu paguei a faculdade da sua irmã, paguei o tratamento da sua mãe no ano passado, e hoje ela tirou o prato das minhas filhas na frente de cem pessoas. Amanhã às nove, o advogado protocola. Se quiser negociar prazo, o escritório é na Rua Voluntários da Pátria, você sabe onde fica, já foi lá assinar.

Dona Zuleide tentou segurar o braço dela, gritando que aquilo era vergonha, escândalo, que família não fazia isso. Marisa só desviou o braço, calma, e olhou pro salão inteiro — pros tios calados, pro primo do celular, pra banda que tinha parado de tocar.

— Vergonha foi vocês colocarem comida de churrascaria de plástico na frente de duas crianças — falou. — Isso aqui é só conta.

Virou as costas e saiu andando pela mesma passagem entre as mesas, sem pressa, sem levantar a voz de novo. Eu segui ela até o portão, meio sem jeito, só pra oferecer alguma coisa — não sei nem o quê, um copo d'água, talvez. Ela agradeceu com a cabeça, entrou no Corolla, deu partida e foi embora com as filhas.

No dia seguinte, uma das garçonetes que também faz bico em outros eventos da família me contou que o processo foi protocolado mesmo, cedinho, às nove e cinco. E que a chácara ficou fechada pro Rogério entrar — trocaram a fechadura do portão principal na mesma semana. Falam que ele foi lá três vezes bater, e nas três vezes o segurança da empresa da Marisa não deixou passar.

Eu não sei se ela perdoou, se voltou atrás, se um dia vai deixar ele ver as meninas de novo direito. Isso não é comigo. Só sei que, três meses depois, fizeram outro evento naquela mesma chácara — reforma concluída, buffet novo, outra empresa contratada. E o nome que constava no contrato, taxidermizado ali no canto do formulário que eu vi passar na mão do gerente, era só um: Marisa Andrade Guimarães, sócia-administradora.

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