Um homem baixo, casado com uma mulher mais alta

Eu tinha trinta e quatro anos quando conheci a Bianca numa festa de aniversário em Curitiba, dessas que terminam com todo mundo cantando parabéns em volta de um bolo de chocolate que ninguém mais quer comer. Ela tinha um metro e setenta e oito. Eu tenho um metro e sessenta e seis. Isso, pra quem não faz ideia do que é ficar do lado de uma mulher assim numa foto, parece bobagem. Não é.

Reparei nisso antes mesmo de reparar no resto. Ela veio até mim pra pegar um copo de guaraná que estava na mesa atrás de mim, sorriu, agradeceu, e eu fiquei ali fazendo conta de cabeça: doze centímetros. Treze, se ela usasse salto. E ela ia usar salto, quase sempre.

Passamos a noite conversando perto da churrasqueira, ela reclamando do trabalho num escritório de contabilidade, eu contando que dava aula de matemática pra adolescente em escola particular, o que já é castigo o suficiente sem precisar de mais nenhum. No fim da festa troquei o número com ela. No caminho pra casa, no carro, fiquei pensando se valia a pena continuar aquilo. Não porque ela não me interessasse — interessava, e muito — mas porque eu já sabia o que vinha depois: a cunhada perguntando se eu não me sentia "diminuído", o colega de trabalho fazendo piadinha de "Napoleão", a sogra medindo a gente com o olho toda vez que nos via lado a lado.

E veio mesmo. Três meses depois de estarmos namorando, minha própria mãe, no almoço de domingo em Ponta Grossa, perguntou baixinho, enquanto lavava a louça, se eu não achava que ela era "grande demais pra mim". Não era pergunta. Era aviso.

Fingi que não escutei. Sequei um prato, guardei na prateleira errada de propósito só pra ter que voltar e organizar tudo de novo, qualquer coisa pra não responder na hora.

O que ninguém perguntava, e isso é que doía, era se a Bianca se incomodava. Porque não se incomodava. Isso eu sabia desde a segunda semana, quando fomos ao cinema em Batel e ela pegou minha mão no escuro sem nem olhar pro lado, como quem faz uma coisa mil vezes repetida. O problema nunca foi ela. Era eu, remoendo o que os outros achavam que eu deveria sentir.

Fui carregando isso comigo feito pedra no sapato. Evitava fotos de corpo inteiro juntos. Se alguém sugeria uma foto, eu arranjava desculpa — "deixa que eu tiro", "vamos sentados" — e ela ria, sem entender direito, achando que era frescura minha com aparência. Uma vez ela até brincou: "você tá ficando vaidoso, hein". Eu ri também. Por dentro não tinha graça nenhuma.

Foi na festa de noivado da irmã dela, em maio, num salão perto do Batel, que a coisa estourou. Um tio da Bianca, já no segundo uísque, resolveu ser engraçado na hora do brinde: levantou o copo e disse que só faltava eu subir numa cadeira pra beijar a noiva — quer dizer, a Bianca. Todo mundo riu. Ela não riu. Ficou vermelha, olhou pra mim, esperando eu reagir de algum jeito, rir também, disfarçar. Eu não consegui. Levantei da mesa e fui pro estacionamento, sozinho, com o paletó ainda no braço de tanta pressa.

Fiquei uns vinte minutos encostado no meu Onix, olhando pro nada, quando ela apareceu com os saltos na mão, descalça no asfalto frio, o vestido longo arrastando um pouco.

— Você vai me dizer o que foi aquilo lá dentro — falou, sem rodeio, sem tom de quem tá reclamando, mas de quem realmente quer saber.

— Foi ridículo, aquele brinde.

— Foi. E daí? Eu não ligo pro que aquele tio bêbado fala. Eu ligo pro que você fez depois. Você levantou e saiu, Rafael. Na frente de todo mundo.

Fiquei calado. Ela continuou, e a voz dela tremia um pouco, coisa que eu nunca tinha visto antes:

— Faz seis meses que eu vejo você evitar foto comigo. Fugir de assunto quando minha prima pergunta da diferença de altura. Ficar tenso quando eu uso salto alto pra ir num lugar. Eu não escolhi ser desse tamanho, Rafael. E não vou usar tênis de solado fino o resto da vida pra você se sentir mais confortável do lado de mim.

— Não é isso.

— É sim. Você tá noivo dos outros, não de mim. Do que os outros vão pensar.

Ela enfiou os sapatos de volta no pé, ali mesmo, apoiada no capô do carro, e voltou pra dentro do salão sem olhar pra trás. Fiquei sozinho no estacionamento por mais um tempo, com o barulho da festa abafado vindo lá de dentro, um cachorro latindo em algum quintal da vizinhança, e a certeza gelada de que ela tinha razão em cada palavra.

Não dormi direito naquela noite. No dia seguinte, sábado, fui até o apartamento dela, no bairro Água Verde, com um pote de doce de leite que ela adorava e que eu nem tinha comprado com intenção nenhuma além de precisar segurar alguma coisa nas mãos enquanto falava. Ela abriu a porta ainda de pijama, cabelo preso torto, e me deixou entrar sem dizer nada.

Contei pra ela, sentado na mesa da cozinha dela, sobre a minha mãe perguntando se ela era "grande demais pra mim". Contei do colega de trabalho e do apelido idiota. Contei que desde criança, na escola, eu era o menor da sala, o último escolhido pro time de vôlei, e que aquilo tinha ficado grudado em mim feito um carimbo que eu nunca consegui arrancar.

— Isso é seu, Rafael — ela disse, sem soltar a mão dela da minha. — Ninguém aqui te carimbou de novo. Você que carrega esse carimbo sozinho e ainda me culpa quando ele aperta.

Não teve grande reconciliação de filme naquele momento. Teve um silêncio comprido, os dois olhando pro pote de doce de leite fechado em cima da mesa, e ela finalmente perguntando se eu queria ficar pro almoço.

O que mudou de verdade não foi um estalo de consciência. Foi uma decisão prática, tomada duas semanas depois, quando recebi uma ligação da minha mãe convidando pra outro almoço de domingo. Perguntei se a Bianca podia ir junto, e ela disse que sim, "mas avisa pra ela não usar aqueles saltos, fica capaz de bater a cabeça na luminária lá de casa" — brincadeira que não era brincadeira nenhuma.

Fui até o escritório de advocacia da minha prima, a Marta, dois dias depois — não por causa da Bianca, mas porque tinha decidido tirar meu nome de sócio de uma escola de reforço que eu mantinha junto com esse mesmo colega que vivia com a piada do "Napoleão". Doze mil reais de participação, que eu vendi pra ele por um valor abaixo do justo só pra sair logo daquilo. Assinei o distrato numa sexta-feira, entreguei a chave da sala junto com os últimos materiais didáticos, e saí de lá sem aquele peso que carregava desde que via aquele homem rir de mim toda semana na sala dos professores.

No domingo seguinte, levei a Bianca pro almoço em Ponta Grossa. Ela foi de tênis, por vontade própria, porque disse que salto alto em churrasco de família era sofrimento desnecessário. Minha mãe abriu a porta, olhou pra ela, olhou pra mim, e não falou nada sobre altura. Falou sobre o farofa que ela tinha feito.

Foi na cozinha, enxugando os mesmos pratos de sempre, que minha mãe baixou a voz de novo e falou:

— Ela é uma boa moça.

— É — respondi, guardando o prato na prateleira certa dessa vez. — E o tamanho dela não é problema meu, mãe. Nunca foi.

Ela não respondeu nada. Só continuou lavando a louça, e dessa vez o silêncio entre a gente não doía mais.

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Sixty & Me
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