O portão azul não se abre mais para ela

A dívida do abrigo era de três mil e oitocentos reais. Dona Vânia sabia porque a conta ficava presa com um ímã em formato de maçã na porta da geladeira, bem ao lado da foto do marido morto há sete anos. Ela batia o olho naquele papel toda manhã, enquanto esperava a água ferver para o café.

O abrigo ficava no fim da rua de terra, depois da padaria que vendia pão doce por dois reais e cinquenta. Vânia passou a ir lá depois que se viu sozinha com uma casa de três quartos, um quintal com uma mangueira que dava fruta bichada e um portão azul que rangia como gato na madrugada. Ela nunca foi de ter bicho em casa. O marido tinha alergia. Mas, desde que ele se foi, ela começou a descer a rua com um saco de pão amanhecido e um pote de margarina vazio cheio de arroz com cenoura. Os cachorros do abrigo a reconheciam pelo som da sandália arrastando na poeira.

A filha, Alessandra, reclamava. Dizia que aquilo era maluquice de velha, que ficar andando em rua de terra com esse sol rachando chão de Belo Horizonte não era coisa para uma mulher de sessenta e oito anos. O genro, Júlio, ria baixo e mexia no celular. Ele tinha uma caminhonete branca ano 2021, que estacionava na calçada da casa de Vânia com o para-choque quase derrubando a cerca de buxinho. Toda vez ela ficava olhando aquela roda esmagando as plantinhas e pensava: “Nem pra encostar no portão direito.”

Na noite da virada, eles dormiram na casa dela. Tinham ido resolver um negócio no centro e disseram que era melhor passar a noite. Vânia fez um frango com quiabo, serviu suco de caju em copo americano, e foi deitar. Acordou às duas e meia com a bexiga apertada. Foi arrastando o chinelo pelo corredor, sem acender a luz. Foi quando ouviu a voz do Júlio na cozinha, baixa, mas a parede da casa velha era fina como papel.

— A casa vale uns setecentos mil, Ju. Se a velha for pro asilo, a gente vende e fica com tudo. — era a voz da Alessandra.

— Ela assina qualquer papel se a gente disser que é pra segurança dela. A gente fala que é uma procuração pra cuidar das contas. Depois a gente interna. Asilo particular, sem luxo. — Júlio falou com a boca perto da xícara, o barulho do líquido engolido dava pra ouvir.

Vânia ficou parada no corredor. O chinelo esquerdo escapou do pé e bateu no rodapé. Ela nem mexeu. Eles continuaram. Falaram que o Fusca velho do pai dela podia virar peça. Que a máquina de costura da vó dava pra vender em antiquário. Que o freezer da área de serviço ia dar trabalho. Ninguém citou o nome dos cachorros. Ninguém citou o nome dela além de “a velha”.

Ela voltou para o quarto sem puxar descarga. Sentou na cama, no escuro, e ficou alisando a dobra do lençol até o tecido ficar quente. Não chorou. Não teve raiva. Só uma espécie de preguiça, daquelas que a gente sente quando sabe que o trabalho vai ser grande.

De manhã, ela fez café normalmente. A Alessandra apareceu de pantufas, cabelo preso, elogiou a toalha de mesa. Júlio saiu para o quintal e voltou medindo a parede da cozinha com a mão aberta, como quem calcula azulejo. Vânia fingiu que não viu. Serviu bolo de fubá. Quando eles foram embora, ela lavou a louça, enxugou a pia, pendurou o pano no varal e pegou a bolsa.

Foi a pé até o abrigo. O sol de janeiro pesava na moleira. Na portaria, um senhor de boné sujo de graxa empurrava um carrinho de mão com sacos de ração. A Farrowska, uma cadela preta sem uma das patas dianteiras, veio mancando. Vânia sentou no banco de madeira encostado no muro de tijolo baiano. Tirou do bolso um pacote de bolacha cream cracker. Esfarelou. A cadela comeu da sua mão, com a língua quente raspando. Vânia passou a mão na cabeça do animal e ficou ali, vendo as formigas carregando farelo.

Naquela tarde, ela foi ao cartório de notas. Era uma terça-feira, e o lugar cheirava a papel velho e cera de chão. Pediu para falar com o tabelião. Contou o que queria. Doação com reserva de usufruto. Tudo o que era dela — a casa, o quintal, os azulejos da cozinha, a máquina de costura da vó, o freezer da área de serviço, o Fusca sem roda — passaria para o abrigo. Ela ficaria com o direito de morar ali até morrer.

— A senhora tem filha? — perguntou o tabelião, coçando o queixo com a caneta.

— Tenho. Mas ela tem casa própria.

Não perguntou mais nada. O tabelião datilografou, carimbou, assinou. Vânia pagou a taxa de escritura: quatrocentos e vinte reais. Guardou o papel dobrado na bolsa, junto com um santinho de Santo Antônio e o cartão do açougue.

Passou um mês. Alessandra começou a aparecer mais. Toda semana levava um pote de doce de leite, um bolo de milho, uma blusa de frio que dizia que era “pra mãe não passar frio nessa serra”. Júlio lavava a caminhonete na porta, enchendo a calçada de espuma. Vânia deixava.

Até que, num sábado de manhã, eles chegaram com uma pasta de documentos. Alessandra abriu sobre a mesa da cozinha, ao lado do prato de pão de queijo. Havia uma procuração pronta. “Pra mãe não se preocupar com banco, com conta de luz, essas coisas. A gente cuida da senhora.” Júlio ficou em pé, olhando para o portão azul pela janela, como se já estivesse na casa.

Vânia pegou a caneta. Olhou o nome da filha impresso no papel. Depois abriu a bolsa, devagar, sem pressa. Tirou a pasta verde, abriu no meio. Colocou a escritura na mesa.

— Não precisa de procuração, filha.

Alessandra franziu a testa. Puxou o papel. Leu em silêncio, movendo os lábios. Ficou branca.

Júlio veio por trás, arrancou o papel da mão dela. Leu duas vezes. Jogou no chão.

— Você fez isso escondida! Isso não vale! A senhora tá gagá?

Vânia se levantou. Foi até a janela. Abriu o trinco. Do lado de fora, a Farrowska estava sentada na calçada, esperando. Vânia assobiou. A cadela abanou o rabo e entrou no quintal, mancando.

— A casa agora é deles, Júlio. Dos cachorros. E eu vou morrer aqui — ela falou sem virar o rosto. — Vocês não vão me vender junto com o encanamento.

Alessandra desatou a chorar. Gritou que a mãe tinha enlouquecido, que ia dar parte, que ia procurar um advogado. Júlio chutou a lata de lixo da cozinha, derrubou o café no chão. Vânia não se moveu. Foi até o armário, pegou o pano de prato e começou a limpar a poça. O cheiro de café fresco subiu pela cozinha. Eles saíram batendo a porta.

No fim da tarde, Vânia sentou no degrau da varanda com uma bacia de água para a cadela. A Farrowska bebeu, espirrou, deitou ao lado dela. O portão azul ficou entreaberto. Vânia percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, as mãos não tremiam. Não havia mais nada para esconder. Ela puxou a lata de ração, abriu com a unha e despejou no pote. A cadela lambeu os dedos. O vento bateu na mangueira e derrubou uma fruta bichada no telhado. Vânia não se levantou para pegar. Ficou ali, sentada, contando as formigas que subiam pelo rodapé. O mundo continuou do lado de fora. Do lado de dentro, só o barulho do rabo da cadela batendo no chão.

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Sixty & Me
O portão azul não se abre mais para ela