A Gata Mais Obstinada do Bairro

Dona Celeste não vivia. Ela resistia. Setenta e dois anos, um apartamento de quarto e sala na Zona Norte do Rio, uma aposentadoria que mal cobria os remédios até o dia quinze. E o silêncio. Há seis meses, Seu Artur se fora. Não para outra — simplesmente se fora. Quieto, durante o sono, sem um gemido. Celeste acordou de manhã e ele já estava frio. A mão dele repousava na beirada da cama, como se tivesse tentado alcançá-la e não conseguido. A filha Bianca veio de São Paulo para o enterro, ficou três dias, deixou um vidro de losartana em cima da geladeira e foi embora correndo, soltando a frase de sempre: “Mãe, qualquer coisa me liga”. Celeste não ligava. Mas Bianca ligava. A cada duas semanas, pontualmente, como um despertador.

— Mãe, como a senhora está?

— Bem.

— Que bom. Beijo.

Era essa a conversa. Todo o contato. Todo o sentido. Celeste ia ao mercado. À farmácia. Às vezes ao postinho, onde mediam sua pressão e repetiam “a senhora precisa se cuidar”. Ela não se cuidava. Ela não sentia nada. Era como o móvel velho da entrada. Como aquela cristaleira que Artur vivia prometendo reformar e nunca reformou.

Naquele dia abafado de fevereiro, com o céu parado e uma garoa morna, Celeste voltava da consulta. A pressão disparara de novo. A médica balançou a cabeça, rabiscou uma receita nova. Celeste enfiou o papel no bolso e nem olhou. Perto das lixeiras do condomínio, algo se moveu. Uma gata. Magra, tricolor, com um corte na orelha esquerda. Estava sentada no cimento quente, encarando Celeste. Não era um olhar de súplica. Não era um olhar pidão. Era avaliador. Como se estivesse medindo: é essa ou não é? Celeste passou direto. A gata se ergueu e veio atrás. Em silêncio. Sem miar, sem se esfregar, só caminhando três passos atrás, como uma escolta. Celeste se virou na porta do bloco.

— Sai daqui. Me deixa em paz.

A gata sentou. Piscou. E ficou. Celeste subiu para o terceiro andar, fechou a porta, ligou a chaleira. Foi até a janela — lá embaixo, numa moita, a gata estava imóvel, olhando para cima. Uma gata doida. Só podia ser doida.

Na manhã seguinte, Celeste abriu a porta e quase tropeçou. No capacho, enrolada como uma rosquinha, dormia a gata tricolor. Como subiu três andares era um mistério. Mas estava ali, como se aquele fosse o lugar dela desde sempre.

— E agora? O que eu faço com você? — perguntou Celeste.

A gata abriu um olho. E fechou. Como se a resposta fosse óbvia.

Celeste não a deixou entrar. Pelo menos era o que ela dizia para si mesma. Só colocou um pires com leite no corredor. Só deixou a porta entreaberta por causa do calor, fevereiro infernal, o ventilador batendo vento quente. E a gata simplesmente entrou. Celeste ficou parada no corredor observando aquela coisinha magra e cara de pau farejando o canto da sala. A cozinha. O quarto. De repente, a gata parou.

A poltrona do Seu Artur. Velha, afundada, com os braços gastos de tanto cotovelo apoiado. A mesma poltrona onde ele se jogava todo fim de tarde, estalava a língua e dizia: “Celeste, vê se isso é coisa que se faça”. Celeste passou seis meses fazendo um desvio na sala. Não conseguia sentar ali, nem se livrar dela. A poltrona ficou como um túmulo estofado. Como um buraco no meio da casa. A gata pulou. Deu três voltas na depressão deixada pelo corpo de Artur e se aninhou. Encolheu as patas, fechou os olhos. E ronronou. Os lábios de Celeste tremeram. Ela quis gritar “desce já daí!”, mas a garganta fechou, e em vez de um grito saiu um sopro rouco. Ela sentou no sofá e ficou um longo tempo olhando a gata dormir na poltrona do seu marido.

— Uma noite — disse, com a voz áspera. — Amanhã eu te ponho pra fora.

Amanhã não pôs. Nem depois de amanhã. A gata ficou. Chamou de Margot.

— Margot, vem comer — dizia Celeste, baixando a vasilha no chão.

Margot comia. E olhava para Celeste de baixo com aquele mesmo olhar. Avaliador. Sereno. Um olhar de quem sabia de algo que Celeste ainda não entendia.

Depois de uma semana, Celeste comprou ração. A mais barata, num pacote amarelo, na promoção. Ficou parada no caixa do pet shop se sentindo ridícula. A moça do balcão, uma menina de uns vinte anos, de unhas azuis, perguntou:

— Qual a raça?

— Vira-lata. Me atazanou — resmungou Celeste, e saiu sem se despedir.

Depois comprou a caixinha de areia. Depois a vasilha de cerâmica, porque no pires Margot vivia lambuzando o chão. Depois um arranhador de trinta reais, porque a gata começou a afiar as unhas no canto do sofá, e o sofá era a única coisa na vida de Celeste que ainda estava em bom estado. “É temporário”, repetia para si mesma. “Tudo isso é temporário.” Mas a vida já estava mudando. Sem alarde, sem aviso, como a umidade minando uma parede.

Antes, Celeste acordava às nove, ficava olhando para o teto. Agora, às sete Margot sentava ao lado do travesseiro, fitava o rosto dela e não miava. Só esperava. E essa espera silenciosa era mais poderosa do que qualquer despertador. Celeste levantava. Ia para a cozinha. Servia a ração. Ligava a chaleira. E de repente se via há dez minutos na janela vendo a vida do bairro. Sem pensar na pressão, sem pensar na aposentadoria, sem pensar no Artur.

As noites ficaram mais esquisitas. Antes, Celeste ligava a novela — não para ver, mas para escapar do silêncio absoluto. As vozes da televisão preenchiam o vazio e fingiam companhia. Agora, Margot se deitava ao lado dela no sofá, perto do quadril, e ronronava. Baixinho, contínuo, como um motorzinho. E Celeste, pela primeira vez em meses, desligou a TV. O silêncio deixou de ser assustador. Silêncio com ronronado era outra coisa. Ela se pegou conversando com a gata. Não com voz de bebê, não, Celeste não sabia fazer isso, nunca fizera nem com a Bianca quando pequena. Só falava. Como se falasse com uma pessoa.

— A pressão foi a dezesseis de novo. A doutora Glória me olha como se eu fosse um cadáver adiado. Mas eu não estou morta ainda, não.

Margot piscava.

— Bianca ligou. Outra vez aquele “mãe, como a senhora está?”. Como eu estou? Eu estou… Estava. Agora eu nem sei.

A gata esfregava a cabeça na palma da mão dela. E Celeste parava de falar, porque a garganta apertava de novo.

Dona Zuleica, a vizinha do quatro, subiu pra tomar um café, viu Margot e bateu palma:

— Celeste! Você que vivia dizendo “bicho em casa, nem morta”!

— E continuo dizendo. Isso é um favor temporário.

— Temporário — riu Zuleica, olhando a gata se enroscar nas canelas de Celeste. — Com quatro cantos de ração, vasilha de grife e arranhador. Tá certo, temporário.

Celeste virou para a janela, disfarçando. Para a Zuleica não ver que ela estava sorrindo. A primeira vez em seis meses.

Então Bianca ligou. Celeste nem sabe por que contou da gata. Escapou. Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, ela tinha algo sobre o que falar.

— Você pegou uma gata de rua? — a voz de Bianca soou estranha.

— É, um passa-tempo enquanto isso — respondeu a mãe.

— Pelo menos é um passa-tempo, né, mãe?

Celeste desligou e sentiu raiva. Uma raiva viva, quente, pulsante. Não mágoa — mágoa era velha, amolecida, cinza. Era raiva. Daquela que dá vontade de socar a mesa e gritar: “Você não entende nada!”.

Em março, tudo desandou. Margot começou a comer menos. A princípio Celeste nem notou — ora, deixou um pouco. Depois a ração ficava intacta o dia inteiro, formando uma papa seca no fundo da vasilha. Margot ficava deitada na poltrona de Artur, quase imóvel. Só respirava — curto, rápido, como se faltasse ar.

— Ei — Celeste se agachou, olhou nos olhos da gata. — O que foi?

Margot piscou. E virou o rosto para o encosto da poltrona.

Algo dentro de Celeste se partiu.

Ela nunca tinha pisado num veterinário. Artur teve um cachorro quando menino, mas Celeste, nunca. Ela não entendia essa gente que torrava dinheiro com bicho, “com gente faltando remédio”, sempre dizia. Até ontem. Agora ela estava na recepção de uma clínica com uma caixa de transporte no colo. Comprou a caixa na véspera. Quarenta reais, de plástico vagabundo, com a grade frouxa. Enfiou Margot dentro, e a gata nem resistiu. Foi isso o mais aterrorizante. Antes ela teria se debatido, arranhado, furado a mão de Celeste. Agora era só um trapinho de pano respirando e olhando.

A clínica “Mundo Animal” era um cubículo no Méier, com cheiro de éter e pelo molhado. Celeste sentou num banco de plástico, com a caixa apertada contra os joelhos, sentindo-se um peixe fora d’água. Jovens com shih-tzus de lacinho, gatos persas em bolsas de grife. E ela, uma senhora de casaquinho surrado, com uma caixa de quarenta reais e uma vira-lata de orelha cortada.

O veterinário era um menino. Tinha no máximo trinta anos, óculos de aro grosso, jaleco verde. Chamava-se Dr. Gabriel, mas falou “pode me chamar de Gabriel”. Ele apalpou a barriga de Margot e ficou quieto. O rosto mudou.

— O que foi? — perguntou Celeste.

— Vamos fazer um ultrassom.

Ele deslizou o aparelho na barriguinha raspada de Margot, clicou o mouse, franziu a testa. Depois se virou para Celeste e falou baixo, com aquele tom de quem poupa, mas não consegue esconder:

— Ela tem uma massa abdominal. Um tumor. Precisa operar. Se não fizer… — ele hesitou. — Dois meses. Talvez três.

— Quanto custa? — a voz de Celeste saiu firme, mas as mãos tremiam.

— Dois mil e oitocentos reais. Com anestesia, medicação e internação.

Celeste assentiu, pegou a caixa e saiu. Dois mil e oitocentos. Dois meses inteiros de aposentadoria. Comida, luz, remédios, tudo trocado por um corte na barriga de uma gata de rua. Ela sentou no ponto de ônibus. Março, mas ventava gelado, dedos duros de frio. Margot na caixa — quieta, imóvel, só os olhos faiscando pela grade. Não pedia. Não miava. Só olhava. Celeste tirou o celular e ligou para Bianca. Um toque, dois, três.

— Mãe, estou no meio de uma reunião, fala rápido.

— Bianca, eu preciso de ajuda. A gata precisa de uma cirurgia. Dois mil e oitocentos reais.

Silêncio. Depois um suspiro. E uma voz que gelou mais que a ventania:

— Mãe, a senhora está falando sério? Dois mil e oitocentos contos numa gata de rua?

— Ela não é de rua. É minha.

— É uma gata, mãe. Só uma gata. Se morrer, pega outra. Tem um monte na rua.

Celeste fechou os olhos. Ela viu, como um retrato em cima do rack, Artur na poltrona. Ele mudando de canal e virando para ela: “Celeste, você é a mulher mais teimosa que Deus pôs nessa Terra. Quando você resolve, você para o trânsito.” Ele repetiu isso tantas vezes que ela se irritava. Agora daria tudo para ouvir mais uma vez.

— Mãe? A senhora está me ouvindo?

— Estou — disse Celeste. — Obrigada, Bianca.

E desligou.

Por três dias, pensou. Três dias é uma eternidade quando alguém está morrendo ao seu lado. Margot deitada na poltrona, derretendo. Como uma vela. Comia uma colher de chá por dia. Bebia quase nada. Parou de ronronar. Celeste sentava no chão, sobre o velho tapete, e fazia carinho na cabeça dela — leve, só com a ponta dos dedos.

— Eu falei que você era minha. Minha e pronto.

No quarto dia, Celeste levantou às cinco da manhã. Vestiu-se. Foi ao banco. Enfrentou a fila da aposentadoria — três velhinhos antes dela, todos com seus extratos, todos lentos, todos eternos. As notas foram para um envelope pardo no fundo da bolsa, e Celeste andou pela rua abraçando a bolsa contra o corpo, como se carregasse algo explosivo. De certa forma, era.

Na clínica, ela despejou o dinheiro no balcão. As mãos tremiam — de frio ou de pavor, ela não sabia mais.

— Eu trouxe a gata para a cirurgia.

Gabriel olhou as notas, depois para Celeste, depois de novo para as notas. Ele meneou a cabeça. Não disse nenhuma frase feita. Só:

— As chances são boas. Se ela aguentar a anestesia, ficará bem.

Se.

Celeste sentou no corredor. Banco de plástico, parede branca, cheiro de cloro. Tentou se lembrar da última vez que esperara daquele jeito. Lembrou. Vinte e cinco anos atrás, na Santa Casa. Bianca na sala de parto. Celeste sentada naquele corredor gelado, abraçando a bolsa, esperando um choro. Na época, tudo deu certo. O bebê gritou, e o mundo mudou de cor. A porta abriu. A auxiliar saiu — uma moça de touca, com olheiras profundas.

— A senhora é a tutora da tricolor?

— Sou — Celeste se pôs de pé. As pernas dormentes, os joelhos estalando.

— Correu tudo bem. Sua gata é uma guerreira.

Celeste assentiu. Não saiu uma palavra, a garganta trancou. Ela só assentia, assentia, e a moça tocou seu braço:

— Ei, a senhora está bem?

— Estou. Sim. Estou bem.

Trouxeram Margot enrolada em compressas cirúrgicas, zonza, com a barriguinha raspada e uma fina cicatriz rosa. Celeste pegou a caixa com as duas mãos, apertou-a contra o peito e caminhou para a saída.

Em casa, pela primeira vez, colocou a gata deitada na cama. Do lado vazio. O lado onde Artur dormia. Margot respirava pausadamente, e o corte em seu ventre brilhava com o ponto cirúrgico. Celeste se deitou ao lado, pousou a palma sobre o flanco quente e pulsante da gata e sussurrou:

— Você é minha.

Margot se recuperou devagar. No primeiro dia, ficou prostrada, comendo gotas de sachê, olhando com os olhos turvos. Depois ergueu a cabeça. Em uma semana, levantou e foi sozinha até a vasilha, comeu tudo. Celeste parou na porta da cozinha e olhou a gata lambendo o fundo da cerâmica. Pensou: é isso, a felicidade. Uma felicidade besta, de cinquenta centavos, de quatro patas.

No fim de março, Margot já era a mesma de antes. Corria pela casa como um raio, derrubava o saleiro, arranhava o arranhador — e logo depois o sofá, porque personalidade. Celeste ralhava, abanava um pano de prato, gritava: “Mas que capeta!”. Mas no fundo, ria.

Celeste se manteve à base de angu e ovo por semanas. Dona Zuleica trazia de dois em dois dias um prato de sopa, um pedaço de bolo — “fiz demais, leva aí”. Celeste sabia que não sobrava nada. Zuleica era tão dura quanto ela. Mas aceitava. Porque orgulho é bom, mas a fome é real.

No começo de abril, Bianca telefonou.

— Mãe, olha sua conta. Fiz uma transferência. Dois mil e oitocentos reais.

Celeste ficou em silêncio. Depois:

— Pra quê?

— Porque sim. — Uma pausa. Longa, carregada. — A senhora deu sua aposentadoria inteira pra uma gata. E não me contou. Quem me contou foi a Zuleica.

— Zuleica… — Celeste fechou os olhos.

— Mãe, eu não queria ter que descobrir isso por uma vizinha.

Celeste não respondeu de imediato. Não por mágoa. Mas porque entre um milhão de palavras, ela não conseguia achar a certa. Então escolheu a mais simples:

— Vem aqui, Bianca. Vem sem pressa, sem volante. Vem na sexta.

Silêncio. Um, dois segundos.

— Vou sim, mãe. Na sexta.

Celeste desligou. Respirou fundo. Então, sem pensar, foi até a poltrona — a poltrona de Artur — e se sentou. Pela primeira vez. O assento afundou moldando um corpo menor que o dele, mas ainda assim cabia. Não doeu. Margot pulou em seu colo, esfregou a cabeça na palma áspera e ronronou — tão alto que a vibração preencheu qualquer espaço vazio. Pela janela, o céu de outono estava limpo e cor-de-rosa. Celeste olhou para fora e sorriu. Não porque o céu estivesse diferente. Mas porque, depois de tanto tempo, ela voltara a reparar.

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