Eu trabalho na agência bancária da Rua XV de Novembro, aqui em Curitiba, há vinte e um anos. Não fico mais no caixa, mas dá para ver a parada de ônibus em frente à janela da minha mesa. Quando chove — o que acontece quase toda semana nesta cidade —, a parada vira um rio. As pessoas se apertam embaixo do toldo, algumas seguram guarda-chuvas tortos, e eu fico ali observando enquanto carimbo um contrato.
Foi num fim de tarde assim que vi a Luana pela primeira vez. Ela estava parada na chuva, sem casaco, sem guarda-chuva. A bolsa apertada contra o peito. O cabelo escorrendo. Parecia que tinha esquecido como se chora, então deixava a água fazer o trabalho.
Eu tinha acabado de contar as notas do caixa para fechar a agência. A Lourdes, da recepção, já estava com a chave na mão. Aí a Luana olhou para a rua, e eu vi o carro encostar. Um Renegade preto, brilhando de tão novo. A janela desceu, e a Luana ficou parada, imóvel. O motorista falou alguma coisa com ela. Ela balançou a cabeça, subiu no carro e foi embora.
Naquela época, eu não sabia quem era ela. Só mais uma mulher pegando carona debaixo de chuva.
Semanas depois, a Luana entrou na agência. Não como cliente comum. Veio perguntar se podia atualizar o endereço. Eu fiz a atualização, e ela não foi embora. Ficou mexendo no envelope, dobrando a ponta. Aí me perguntou se eu conhecia um bom advogado. Conhecia um, o doutor Arnaldo, que trabalhava ali perto. Passei o número.
Ela me agradeceu e saiu. A Lourdes, que escutava tudo por trás do balcão, comentou baixinho:
— Essa aí tem cara de quem fugiu de marido rico e caiu no buraco.
Eu não respondi. Mas fiquei olhando a Luana atravessar a rua, com os ombros encolhidos. Não era a primeira mulher que eu via carregar documentos com medo. Só que essa tinha um cheiro de cansaço que dava para sentir daqui.
A história começou a aparecer nos extratos.
Luana passou a movimentar a conta com uma frequência estranha. Primeiro, transferia trezentos reais para um tal de Eduardo. Depois, quatrocentos. Ela nunca explicava. Um dia, ela veio até minha mesa porque o banco bloqueou uma transferência de mil e duzentos. Estava nervosa, falando rápido. Me mostrou o aplicativo no celular, a tela trêmula.
— Eu preciso mandar esse dinheiro hoje, dona Selma. Hoje.
Perguntei para quem era. Ela me olhou e respondeu:
— Para o meu ex. Ele disse que se eu não pagar, vão tomar o apartamento dele.
Eu já tinha visto muita gente enredada em nome de ex-marido. Mas a Luana não pedia conselho. Só queria a liberação. Fiz o que o sistema permitia. A transferência caiu. Ela saiu apressada, e a Lourdes me entregou um café. Ficamos em silêncio.
Uma tarde, a Luana veio com uma pasta. Pediu para sentar. Eu a levei para a salinha do gerente. Ela abriu a pasta e espalhou os papéis na mesa: contratos, comprovantes, um carnê com a capa do banco. Me contou que tinha vivido oito anos com o Adilson, um mecânico. Ele trabalhava numa oficina no bairro Portão, acordava às cinco da manhã, juntava moeda para comprar uma casa. Ela achava aquilo lento. Aí apareceu o Eduardo, dono de três franquias de hamburgueria. Prometeu restaurantes, viagens, apartamento no Batel. E ela trocou.
O Adilson não fez escândalo. Ajudou a carregar as malas. Disse "se cuida" e voltou para a oficina.
O Eduardo era um homem de palavras rápidas. Deu a ela um carro no nome dela — aquele Renegade preto que eu tinha visto na chuva —, mas quem andava era ele quase sempre. Ela achava bonito. Parecia um troféu. Só que as franquias começaram a fechar. A dívida cresceu. O Eduardo pediu para ela abrir uma conta poupança, para "organizar as finanças". Ela confiou. Assinou procurações. E quando a última loja quebrou, o Eduardo sumiu.
Deixou a Luana com uma dívida de oitenta e sete mil, quinhentos e quarenta reais. Ela descobriu que o Renegade, registrado no nome dela, tinha sido usado como garantia de um empréstimo. Com uma assinatura que ela nunca fez.
A Lourdes apareceu na porta com dois copos de água. A Luana segurou o copo, e a mão dela tremeu. Ela não chorou. Ficou olhando para o número da dívida como quem lê uma sentença.
Eu não falei nada. Não era minha função. Só passei o número do doutor Arnaldo de novo. Ela guardou o papel na bolsa. Saiu com a pasta aberta, os papéis quase caindo.
Semanas depois, vi a Luana entrar no cartório da esquina. Depois, na revenda de carros. Uma tarde, ela parou na frente do banco com um homem de boné. Ele examinava o Renegade. O carro estava lavado, com os pneus brilhando. A Luana entregou um chaveiro. O homem contou notas, uma por uma. Eu vi da janela. Ela guardou o dinheiro na bolsa e entrou na agência.
Foi direto ao caixa. Depositou a quantia. Depois veio até mim, com um fôlego de quem acabou de correr.
— Vou quitar a dívida — ela disse. — Agora.
O sistema confirmou. Oitenta e sete mil, quinhentos e quarenta reais. Limpou tudo. Sobrou uma diferença: o carro foi vendido por noventa e dois mil. Ela pediu para transferir o restante para uma casa de acolhimento para mulheres. A Lourdes quase deixou o café cair. Eu digitei a transferência.
No momento em que a transação passou, a porta da agência abriu. O Eduardo entrou. Alto, de óculos escuros, o cabelo molhado da garoa. Ele viu a Luana e perguntou:
— O que você fez com o carro?
Ela abriu a bolsa, tirou uma cópia da procuração e deixou o papel na balança do caixa.
— Assinei de verdade, essa vez — ela disse. — E foi para fechar a conta.
O Eduardo pegou o papel. Leu. A Lourdes me olhou de lado, e eu fiz um sinal para ela não se meter. A Luana pegou a bolsa, passou por ele sem encostar e saiu. O Eduardo ficou ali, com o papel na mão, as gotas de chuva escorrendo do casaco. Ele olhou para mim, e eu balancei a cabeça, como quem diz "a agência está fechando".
Naquela noite, choveu de novo. Mas a parada de ônibus estava vazia. A Luana não estava lá. Nem o Renegade preto que ela vendeu. Só a rua molhada, o letreiro do banco refletindo na poça.
A Larissa, a nova estagiária, perguntou se eu conhecia a mulher que tinha feito a transferência grande. Eu respondi:
— Não.
Ela insistiu, dizendo que a mulher parecia aliviada. Eu não disse nada. Só guardei o carimbo na gaveta e desliguei o computador.
Quando saí, a chuva tinha parado. Uma senhora vendia coxinha na esquina. Comprei uma para mim e fui para casa. A cidade estava silenciosa, como fica depois de um dia de chuva forte.
Às vezes me lembro da Luana. Do papel que ela deixou na balança. Das notas que o comprador contou. Da porta que fechou com um clique.
E da mesa vazia na agência, com uma cópia da procuração ainda em cima. Alguém esqueceu de recolher. Eu peguei, dobrei e guardei na pasta de arquivo morto.
Não ia ver a Luana de novo. Mas naquela tarde, quando o Eduardo saiu da agência, ele tropeçou no capacho. O papel caiu da mão dele. A garoa começou a cair de novo. Ninguém correu para pegar. Eu fiquei na janela, com o dedo no botão do alarme. Foi tudo.







