Moro no fim da rua da Matriz, em São Lourenço do Sul. Sou aposentado, viúvo, e minha rotina se resume a três coisas: cuidar do quintal, jogar dominó no bar do Neco e observar a cidade. Desde que a Teresa se foi, faz oito anos, aprendi que os dias ficam compridos quando você não tem ninguém esperando. Então eu reparo. Nos velhos, nos bichos, nos silêncios da rua.
A cachorrinha apareceu no começo de junho. Pelo cinza, uma pata arrastando, aquela coisa mansa no jeito de andar. Vinha da direção do bairro Barrinha, subia a ladeira com dificuldade e se ajeitava no degrau de pedra, encostada na porta fechada. Não latia. Não chorava. Sentava e ficava olhando a porta, como quem espera uma condução que nunca chega.
— Essa aí virou assídua — comentei com o padre Miguel, um dia, enquanto ele regava as samambaias na entrada.
— Aparece todo fim de tarde — ele respondeu. — O pessoal acha que é a cachorrinha da Dona Dulce.
Dona Dulce de Arruda faleceu em março. Tinha oitenta e dois anos, morava sozinha na rua 24 de Abril, numa casa de janelas azuis com um pé de jasmim que atravessava o muro. Encontrou a cachorra filhote, largada numa caixa de papelão atrás do mercadinho São Jorge. Leite no conta-gotas, cobertor do filho que já havia morrido, a cama no quartinho dos fundos. Daí em diante, ninguém via uma sem a outra.
Toda missa das seis, Dona Dulce atravessava a praça com a sacola de crochê no braço e a cachorra do lado. Duquinha de Arruda — era esse o nome completo, mas ninguém chamava assim. Era Duque, porque mesmo pequena, a bichinha tinha um andar de quem manda. A Dulce entrava na igreja, e o Duque sentava. Ficava ali feito sentinela.
Quando a mulher saía, ela se ajoelhava com dificuldade — o reumatismo — e falava baixinho, no ouvido da cachorra:
— Cheguei, minha filha. Bora pra casa.
A cachorra abanava o rabo uma vez só. Como quem recebe uma ordem cumprida.
Em fevereiro, a Dulce caiu na cozinha. Fêmur. Por causa da idade, ficou internada quase um mês no hospital de Pelotas. A cachorra passou esse tempo na porta da casa, esperando. Um vizinho levava comida, deixava água. Ela mal comia. A Dulce morreu na madrugada de uma terça-feira.
No enterro, o Duque ficou amarrado no portão da igreja, porque o vizinho não queria que entrasse. Eu vi. A bicha puxava a coleira, arfando, os olhos no caixão. Foi a primeira coisa que me doeu de verdade naquele dia, no meio de tanta gente rezando com pressa.
Depois, com a casa vazia e as janelas fechadas, a cachorra começou a ir para a igreja. Todo santo dia, no mesmo horário. O corpo lembrava o que o coração se recusava a largar: a Dulce sempre voltava daquele lugar. Então o Duque esperava ali.
Numa sexta-feira de julho, fazia um frio de sangrar os lábios. Eu estava na praça com o termo de chimarrão na mão quando vi o padre Miguel entreabrir a porta da igreja. Não disse nada. Apenas deixou o vão. O Duque levantou, sacudiu as patas e entrou devagar, como quem pisa em terreno santo que não devia.
Eu fui atrás. Não sei por quê. Talvez porque a solidão de bicho me pareça mais sincera que a de gente.
A igreja estava vazia, iluminada só pelas velas da capelinha lateral. Perto do altar, montaram uma mesinha com a fotografia da Dulce, dessas de velório mesmo, o rosto sério no retrato 3×4 ampliado. O Duque parou entre os bancos. Ficou um tempo olhando. Depois aproximou-se da foto, encostou o focinho na moldura e lambeu o vidro. Uma lambida só, na altura do rosto dela.
Depois deitou no chão de tábua, aos pés da mesinha. E fechou os olhos.
Desde então, o padre passou a esperar. Terminava a última bênção, despachava os fiéis, deixava a porta destrancada e apagava as luzes maiores, mantendo só as velas. O Duque entrava, ficava meia hora, quarenta minutos, e saía. O padre dizia que a bicha parecia se despedir da foto toda noite, como se voltasse de uma visita.
— Ela reza do jeito dela — o padre me disse uma vez.
— Reza nada, seu Miguel. Ela espera. Que é pior.
Ele não respondeu. Acho que concordou.
Na segunda semana de agosto, o Duque não apareceu. Dia inteiro de céu roxo, daqueles que anunciam temporais no sul. Choveu forte à noite, com vento dobrando as paineiras da praça. O padre me chamou no rádio da paróquia, já eram dez e meia:
— Seu Osmar, a cachorrinha não veio.
Saí de capa e galocha. Fomos os dois, de lanterna na mão, até a casa da rua 24 de Abril. A porta seguia trancada. No alpendre, encostada na parede, havia uma caixa de roupas doadas — alguém tinha deixado para a campanha do agasalho da paróquia. A tampa estava mal fechada. Dentro, entre casacos velhos, um sobretudo verde da Dulce, daquele que ela usava nos invernos.
O Duque estava deitado em cima. Enrolado na manga. O corpo frio, o focinho apoiado no tecido, como se ainda procurasse o cheiro dela enquanto dormia.
Ficou um tempo a caixa no alpendre, porque ninguém teve coragem de mexer. Depois enterramos a cachorra no jardim dos fundos da igreja, perto do limoeiro. O padre fez uma oração curta. Eu mesmo escrevi na pedra, com tinta branca, uma frase que a Dulce dizia para a bicha toda noite:
"Bora pra casa."
Só isso.
E a casa, pelo jeito, era onde a Dulce estivesse.
O padre ainda fala em fazer uma placa bonita, dessas de marmoraria, com o nome da cachorra completo: Duquinha de Arruda. Mas eu acho que a pedra simples resolve. De vez em quando, levo uma calêndula do meu quintal e deixo na frente. Depois sento no banco da praça e espero o sol cair.
Nunca mais olhei para a porta da igreja sem lembrar dela. E isso, pra quem ficou sozinho, já é alguma coisa.







