Seu Osvaldo já não contava mais os anos: contava as safras de mandioca e os invernos que sua bronquite aguentava. Morava sozinho na Vila Cachoeira, um punhado de casas na beira da BR-101, perto de Alcântara, no Maranhão, onde a estrada de terra vermelha acabava num riacho e, depois da ponte de tábuas, só existia mata. A casa era de taipa, telhado de amianto remendado com lona preta, e o quintal cheirava a jaca madura caindo no chão — ninguém mais catava.
A mulher dele, dona Zuleide, morreu de dengue faz treze anos. O filho, Marcos, foi pra São Luís nos anos noventa, arrumou emprego numa transportadora, casou, teve duas meninas — Patrícia e Roberta — e sumiu aos poucos da vida do pai. No começo mandava cartão de Natal. Depois nem isso. Seu Osvaldo não guardava rancor. Cada um tinha sua vida. Ele plantava roça, criava umas galinhas, ia catar caranguejo no mangue quando dava maré boa e vendia pra atravessador. A aposentadoria era o salário mínimo, mas dava pra ele.
Na vila todo mundo o conhecia. Quando passava com a sacola de palha no ombro, as mulheres da venda do seu Raimundo acenavam:
— Seu Osvaldo, bença.
— Deus lhe abençoe, minha filha.
Às vezes alguém enfiava um pacote de bolacha na sacola dele sem avisar. Ele não recusava.
As netas, Patrícia e Roberta, nunca apareceram. Nem uma visita em dezoito anos. No começo ele esperava — arrumava a casa em julho, tirava do congelador o peixe salgado, pensava: quem sabe elas vêm. Depois parou de esperar.
Uma coisa ainda tinha valor pra ele: o Cristo. Uma imagem de madeira escura, quase um metro, encostada num nicho de alvenaria na sala. Rosto quase apagado de tanto tempo, as mãos com dedos gastos. Ninguém sabia dizer se era do século dezoito ou não — só sabiam que estava ali desde antes da avó dele, trazida, dizia a lenda da família, de uma igreja abandonada perto de São Luís, na época em que a irmandade se desfez e ninguém quis levar as imagens. Ficou. Fazia parte da casa como o forno de barro do quintal, como o rangido da porta de zinco.
Dona Zuleide, enquanto viva, limpava a imagem uma vez por mês com pano úmido e óleo de coco. Acendia vela nos dias de festa. Seu Osvaldo não era de missa toda semana, mas respeitava aquele Cristo. Sentia nele alguma coisa forte — não do tipo que faz milagre estampado, mas do tipo quieto, que segura a casa de pé mesmo quando quase não sobra gente dentro dela.
Um dia a vizinha, dona Creuza, entrou sem bater, como sempre fazia.
— Seu Osvaldo, o senhor devia mostrar esse Cristo pra gente que entende. Dizem que tem imagem antiga que vale uma fortuna hoje em dia. Pode ser que essa madeira aí não seja imagem de igreja pobre, não.
— Deixa de bobagem, Creuza. Quem vai querer esse trambolho velho?
Mas dona Creuza era teimosa. Foi até São Luís visitar o sobrinho, que trabalhava no Museu de Artes Visuais. O sobrinho comentou com um conhecido, marchand de antiguidades sacras que atendia colecionador no Sul do país. E aí a coisa desandou.
O marchand chegou numa quarta-feira, de tarde. Parou na frente da casa uma caminhonete Hilux preta, lavada, brilhando como se tivesse acabado de sair da concessionária. Desceu um homem de uns cinquenta anos, camisa social sem gravata, óculos de grau fino, maleta de couro na mão. Olhou pra casa de taipa, pro quintal com jaqueira, pra galinha ciscando perto da porta, e fez uma cara de quem tinha pisado em algo. Mas entrou.
Seu Osvaldo estava sentado na varanda, consertando uma rede.
— Bença, seu Osvaldo — disse o homem, com voz macia de gente da capital. — Meu nome é Ricardo Aguiar. Trabalho com peças de arte sacra antiga. Chegou até mim a notícia de uma imagem de Cristo que o senhor tem. Posso ver?
— Pode, uai. Fica à vontade.
Ricardo entrou na sala. Viu o Cristo e parou. Ficou parado ali um bom tempo, se aproximando, afastando, inclinando a cabeça. Tirou da maleta uma lupa, uma lanterna pequena e um instrumento fino de metal. Passou os dedos com cuidado pela madeira, cochichando alguma coisa. Depois se virou. Estava com o rosto vermelho de tanta empolgação.
— Seu Osvaldo, isso aqui é imaginária colonial, provavelmente do fim do século dezoito, escola maranhense. Tem menos de vinte peças catalogadas desse tipo no país inteiro. Se restaurar direito, isso vale um dinheirão em leilão.
— Quanto é um dinheirão?
— Uns trezentos e cinquenta mil reais. Talvez mais, se aparecer o colecionador certo.
Seu Osvaldo tirou o chapéu de palha, coçou a cabeça, botou o chapéu de volta.
— Trezentos e cinquenta mil? Rapaz do céu.
A notícia correu mais rápido que fofoca de fim de novena. No dia seguinte já comentavam na venda do seu Raimundo. Na semana seguinte, sabiam em Alcântara toda. E começaram a chegar visitas.
Primeiro foi o sobrinho da falecida Zuleide, o Deusimar, que tinha sumido havia doze anos. Chegou de moto, trazendo uma garrafa de cachaça e um quilo de charque.
— Tio Osvaldo, como o senhor tá? Fiquei sabendo do Cristo. É verdade mesmo que vale trezentos e cinquenta mil?
— Falam.
— O senhor lembra que sou filho da tia Zuleide, viu? Sangue do sangue.
— Lembro, Deusimar. Lembro até que na hora do enterro dela você ficou lá atrás, esperando acabar, e foi embora antes de jogarem a terra.
Deusimar não teve resposta. Foi embora sem levar nada.
Depois apareceu uma prima distante, dona Marlene, de São Bento, com marido, três filhos e um neto de colo. Trouxeram bolo de macaxeira e uma garrafa de licor de jenipapo.
— Seu Osvaldo, o senhor lembra de mim? Sou neta do seu Raimundo Cordeiro, seu primo!
Ele não lembrava de Raimundo Cordeiro nenhum. Mas serviu café, ouviu história de família que não conhecia, e no fim dona Marlene deixou escapar:
— Se o senhor for vender essa imagem, não esqueça de nós, viu? Somos parente.
E foram chegando outros. Vizinho de vizinho. Ex-genro de um primo falecido. Gente que ele nunca tinha visto na vida jurando parentesco. Todos sorridentes, todos com um presentinho na mão, todos esperando alguma coisa.
Até que chegou Patrícia.
Patrícia era a neta mais nova, filha do Marcos. Vinte e três anos, cabelo alisado, bolsa de grife pendurada no ombro. Não veio sozinha — veio com o namorado, um rapaz de camisa polo e relógio caro, dirigindo uma SUV nova. O namorado olhou pra casa de taipa como quem tinha medo de sujar o tênis.
Seu Osvaldo saiu pra varanda. Viu a neta e o peito apertou. Sangue dele, apesar de tudo. A última vez que tinha visto Patrícia ela tinha uns seis anos. Agora era uma mulher feita, bonita, e completamente estranha.
— Oi, vô — disse ela, sem calor na voz.
— Vivo — respondeu ele. — Ainda vivo.
Entraram. Patrícia sentou à mesa da cozinha, com a bolsa no colo. O namorado ficou parado na porta, sem nem espiar a sala.
— Vô, a gente veio tratar de um assunto — disse ela.
— Assunto? Pensei que tinha vindo ver o avô.
— Isso também — ela apressou. — Mas também precisamos conversar. Desculpa não ter vindo antes, vô. Correria, trabalho, o senhor entende…
— Entendo. Entendo tudo.
— Então. A gente ficou sabendo do Cristo. Vô, isso é muito dinheiro. O senhor vive sozinho aqui, não precisa de uma quantia dessas. Eu e o Bruno — apontou pro namorado — estamos financiando um apartamento, o casamento tá pra sair. A gente é que precisa desse dinheiro.
— Precisam — repetiu o velho.
Ficou calado um instante, olhando pra ela — arrumada, com aquele blazer de loja de shopping. Lembrou de quando, ainda com Zuleide viva, ligava pro filho: "Vem, Marcos. Traz as meninas. Já secamos peixe, já fizemos doce de buriti. Tamo esperando." Marcos prometia. Nunca vinha. Ano após ano. Dezoito anos.
— Patrícia — disse ele, devagar. — Você sabe o nome direito dessa imagem? Já perguntou de onde ela veio, quem trouxe pra essa casa?
— Vô, isso não importa agora…
— Importa sim — falou ele, num tom que ela nunca tinha ouvido dele. — É a única coisa que importa.
Patrícia ficou vermelha. O namorado, atrás dela, deu uma risadinha de deboche.
— Vô, o senhor não entende — ela insistiu, já mais dura. — Isso não é só uma imagem. É um patrimônio da família. E eu tenho direito…
— Direito você tem sobre o que você construiu — cortou seu Osvaldo, se levantando da cadeira, com a mão firme na bengala. — E o que você construiu com essa casa, com esse velho, foi dezoito anos de silêncio. Você não tem direito a saudade que não sentiu, nem a herança de quem você não visitou.
Bruno se adiantou, tentando puxar Patrícia pelo braço, mas ela se soltou.
— O senhor tá sendo injusto! A gente é sua família!
— Família — disse o velho — é quem senta na mesa quando não tem nada pra ganhar. Vocês só sentaram agora que apareceu preço.
Ele foi até o nicho, pegou o Cristo com as duas mãos, envolveu num pano limpo que estava dobrado ali do lado, feito de propósito, e o colocou em cima da mesa, na frente dela — não como oferta, como prova.
— Ricardo Aguiar volta aqui amanhã de manhã — continuou, tirando do bolso do colete um envelope amarelado, já meio surrado nas dobras. — Já assinei papel com ele. Vendi. Vendi pra levar pro Museu de Arte Sacra de São Luís, com o nome da minha Zuleide gravado na placa, do jeito que ela merecia, que rezou pra esse Cristo trinta anos e nunca pediu nada em troca. E o dinheiro — trezentos e cinquenta mil, tudo certinho, já com contrato registrado em cartório em Alcântara — vai pra reforma da capela da Vila Cachoeira, pra construir um posto de saúde e pra pagar o asilo de dona Creuza, que cuidou de mim mais que filho meu cuidou.
— O senhor não pode fazer isso! — gritou Patrícia, com a voz embargada, mais de raiva do que de choro.
— Já fiz — respondeu seu Osvaldo, calmo, dobrando o envelope de volta e guardando no bolso. — A escritura tá lavrada, o Cristo já foi fotografado e catalogado pelo museu semana passada. Amanhã o restaurador leva. Vocês chegaram tarde demais, minha filha. Chegaram tarde há dezoito anos.
Bruno puxou Patrícia pelo braço de novo, e dessa vez ela deixou. Saíram sem se despedir. A SUV arrancou na estrada de terra, levantando poeira vermelha que ficou pairando no ar por um bom tempo, até assentar de novo no chão, do jeito que sempre assentava.
Seu Osvaldo ficou na varanda, olhando o mangue ao longe, ouvindo o barulho de uma joão-de-barro que tinha feito ninho no beiral havia semanas e que ele nunca tinha reparado direito até aquela tarde. Entrou em casa, pôs a chaleira no fogo de lenha, e sentou pra esperar a manhã seguinte — quando o Cristo, enfim, ia embora pra onde alguém soubesse dizer o nome dele.







