O açougue da esquina, na Vila Prudente, ainda cheirava a sabão de coco quando Renata Aguiar chegou naquela tarde de domingo. Fazia questão de passar por lá antes de subir — comprar um pedaço de linguiça calabresa, trocar duas palavras com seu Osvaldo, o dono, e só depois enfrentar o apartamento onde a sogra estaria esperando com aquele olhar de inspeção. Ela nem imaginava que, quarenta minutos depois, estaria de joelhos no tapete da sala, e que dali sairia uma mulher diferente da que tinha entrado.
Bartolomeu — Bartô, para os íntimos — era um vira-lata caramelo de sete anos, cego de um olho e com a pata traseira mancando desde que fora atropelado, ainda filhote, na frente da casa da mãe de Renata, em Suzano. Ela o resgatou aos catorze anos, escondida da própria mãe por três semanas até conseguir convencê-la a deixar o cachorro ficar. Agora, aos vinte e nove, casada havia seis anos com Diego Ferraz, era Bartô quem dormia aos pés da cama, quem esperava na porta às seis da tarde, quem tinha, cravado no colar surrado, uma placinha com o nome gravado a mão numa oficina de chaveiro que já nem existia mais.
Toda vez que dona Marisa vinha visitar — o que acontecia quase todo domingo, sem avisar, direto do ônibus 875 que parava na esquina — Renata levava o cachorro para o quarto de serviço, fechava a porta, colocava a ventoinha ligada para abafar os latidos baixinhos. Fazia isso havia seis anos. Não porque concordasse. Porque tinha aprendido, do jeito difícil, que discutir com a sogra sobre o cachorro custava caro demais em paz doméstica.
Naquele domingo, porém, ela se atrasou. Ainda estava com a sacola do açougue na mão quando ouviu a chave girar na fechadura — Marisa tinha cópia, "para emergências", segundo ela mesma — e a porta se abriu sem aviso. Bartô, que cochilava perto do sofá, levantou a cabeça, devagar, por causa da pata ruim.
— De novo esse bicho fedido solto na sala — Marisa torceu o nariz, plantada na entrada com a bolsa ainda no ombro.
— Boa tarde, dona Marisa — Renata largou a sacola em cima do balcão da cozinha americana. — Já vou levar ele pro quarto.
— Diego! — a sogra chamou, sem tirar os olhos do cachorro, que arrastava a pata tentando se aproximar dela, balançando o rabo, do jeito bobo que só cachorro velho consegue balançar. — Você sabe que essa coisa me dá coceira no corpo inteiro. Por que ainda está aqui?
— Mãe, calma, deixa eu resolver.
Bartô continuou se arrastando na direção dela, sem entender o clima, só querendo cheirar a barra da calça de quem tinha acabado de entrar. Marisa deu um chute. Não foi um encostão sem querer — foi um movimento seco, calculado, que jogou o cachorro para o lado, batendo com o flanco na quina do rack da TV. Ele ganiu, um som fino, quase humano, e ficou parado, tremendo, num canto.
— Dona Marisa — a voz de Renata mudou de lugar dentro do peito. — A senhora acabou de chutar meu cachorro.
— O que você disse? — Marisa arregalou os olhos.
— Eu disse bem claro. A senhora chutou um animal indefeso na minha frente.
Diego largou o celular no braço da poltrona. Levantou devagar, olhando entre a mãe e a esposa como quem tenta calcular a distância de uma bomba antes de decidir por qual lado desviar.
Renata foi até o canto, se abaixou e pegou Bartô no colo. Ele estava mole, encolhido, com aquele cheiro de pelo quente que ela conhecia desde os catorze anos. Levou-o para o quarto de serviço, deitou na caminha xadrez, ficou uns segundos com a mão no pescoço dele, sentindo o coração bater rápido demais. Só então voltou para a sala.
— Sente-se, mãe — Diego apontou o sofá. — Vamos conversar isso com calma.
Marisa se acomodou na poltrona de couro sintético, a preferida, debaixo da qual, curiosamente, ficava guardada a mala de viagem da própria Renata. Um detalhe bobo que ela notou naquele instante e nunca soube explicar por que notou.
— Renata precisa pedir desculpas — Diego cruzou os braços.
— Eu? — ela sentiu o sangue subir.
— Você xingou minha mãe.
— Eu disse a verdade. Quem chuta cachorro velho e cego de um olho não merece que ninguém amenize a palavra.
— É um animal, Renata. Ela é minha mãe.
Seis anos de casamento passaram rápido pela cabeça dela naquele segundo. Seis anos escondendo o cachorro. Seis anos ouvindo comentário sobre "cheiro de bicho" numa casa que ela limpava com Veja e álcool toda semana. Seis anos calada.
— Diego — a voz dela ficou baixa, quase gentil, dando a ele uma última chance. — Sua mãe machucou um bicho indefeso. De propósito. Na minha frente. E você quer que eu peça desculpas?
— Você a chamou de coisa pior que isso.
— Porque ela agiu pior que isso.
— Peça desculpas. Agora.
— Não.
— Renata, eu não estou brincando.
— Eu também não, Diego. Sua mãe machucou quem eu amo. Que tal ela pedir desculpas primeiro?
Marisa bufou da poltrona:
— Eu? Pra um vira-lata sarnento?
— Não pro cachorro. Pra mim.
— Por quê?
— Por agredir um membro da minha família.
— Membro da família?! — Marisa riu, um riso seco, sem graça nenhuma. — Essa pulguenta é membro de família?
— Há sete anos. Desde antes de eu conhecer seu filho.
— Filho, você está escutando essa loucura?
Foi aí que o rosto de Diego mudou. Renata reconheceu o momento exato — vira isso antes, em discussões pequenas dentro do quarto, quando ele cedia ao primeiro sinal de teimosia dela. Mas ali, com a mãe e a poltrona e o domingo inteiro testemunhando, ele endureceu de um jeito que ela nunca tinha visto.
— Renata, você vai se ajoelhar e pedir desculpas pra minha mãe. Agora.
— Não vou.
Ele deu um passo, segurou o braço dela — não com violência, mas com aquele aperto que humilha mais do que dói. Renata puxou o braço com força, e antes que pensasse no que estava fazendo, sua mão já tinha cruzado o ar e acertado o rosto dele. Um estalo seco, que pareceu ecoar entre as paredes cor de creme da sala.
— Você bateu em mim — ele levou a mão à bochecha, incrédulo.
— Foi mais ou menos assim que doeu no Bartô. Só que ele não pode revidar.
A tia Cida — irmã mais nova de Marisa, que tinha vindo junto e até então só observava da cadeira perto da janela, com o crochê parado no colo — se levantou devagar.
— Renata, filha…
— Tia Cida, isso é entre eu e o Diego.
— Você me bateu na frente da minha mãe e da minha tia — Diego cuspiu as palavras.
— E você ficou calado quando sua mãe machucou meu cachorro. Na minha frente.
— Não é a mesma coisa!
— Concordo. Meu tapa foi bem mais suave.
Diego apertou os punhos, mas não avançou. Ele sabia — ela via nos olhos dele que ele sabia — que tinha perdido o controle da cena havia um bom tempo, talvez desde o dia em que aceitou fingir que não via o desprezo da mãe pelo animal que Renata mais amava no mundo.
— Escolha, Diego — ela falou, e a sala ficou tão quieta que dava para ouvir o pingente da cortina bater na janela por causa do vento que entrava. — Ou você e sua mãe pedem desculpas ao Bartô e a mim, aqui, agora. Ou eu saio dessa casa hoje. Com ele.
— Você não teria coragem.
Marisa cruzou os braços, satisfeita, como se já tivesse vencido.
— É mesmo? — Renata pegou o celular em cima do balcão da cozinha, abriu o aplicativo do banco, virou a tela para o marido. — Sabe o que é isso? A conta poupança que eu abri sozinha há quatro anos, com o dinheiro das minhas aulas particulares de inglês nos fins de semana. Trinta e um mil e duzentos reais. Nunca contei a você porque, no fundo, eu sabia que um dia ia precisar sair rápido demais para explicar.
Diego empalideceu.
— E o apartamento?
— O apartamento é seu, do financiamento que você paga com seu nome. Eu nunca pus meu nome nele, lembra? Sua mãe fez questão de sugerir isso no dia do casamento, "para não complicar as coisas". Pois bem. Agora não complica nada.
Ela foi até o quarto de serviço, pegou Bartô no colo — ele ainda tremia um pouco, mas já lambia o queixo dela, meio zonzo — e voltou com a caminha xadrez debaixo do braço.
— Renata, pelo amor de Deus, para com isso — Diego tentou segurar seu braço de novo, e dessa vez ela só se afastou, sem gritar, sem bater.
— Você teve a chance de escolher entre sua mãe e sua família de verdade. Escolheu.
Na porta, ela parou um segundo. Olhou para trás, para Marisa, ainda sentada naquela poltrona de couro sintético, com a boca meio aberta, sem achar as palavras. Olhou para tia Cida, que baixou os olhos para o crochê. Olhou para Diego, parado no meio da sala como quem só percebe o tamanho do estrago depois que a poeira já baixou.
— Ah, e mãe do Diego — ela disse, já com a mão na maçaneta —, da próxima vez que quiser chutar alguém indefeso, escolha uma pessoa que possa te processar. Cachorro não pode. Eu posso, e vou processar por maus-tratos, com foto do hematoma que ele vai ter no flanco amanhã.
Ela saiu com Bartô, a caminha xadrez, uma mochila com o essencial e as chaves do carro que estava, felizmente, também no nome dela.
Foi para a casa da mãe, em Suzano, a mesma rua onde Bartô tinha sido atropelado catorze anos antes. No dia seguinte, segunda-feira, às nove da manhã, ligou para um advogado que uma colega do curso de inglês tinha indicado. Levou o boletim de ocorrência registrado na delegacia da Vila Prudente, o laudo do veterinário atestando a contusão na região do flanco esquerdo e uma cópia impressa da conversa em que Diego, três dias depois, mandou mensagem pedindo para "conversar com calma".
Ela não respondeu à mensagem. Foi ao cartório com o advogado, formalizou o pedido de separação de corpos, e usou parte dos trinta e um mil reais da poupança para fechar, à vista, um estúdio de trinta e dois metros quadrados perto do trabalho, num prédio que aceitava animais — ela tinha perguntado isso antes mesmo de perguntar o preço do metro quadrado.
Um mês depois, Bartô já dormia sem tremer, numa caminha nova, perto da janela onde batia sol de manhã. Renata pendurou no gancho da entrada a antiga plaquinha do colar dele, a gravada à mão, junto com uma cópia da sentença que autorizava a guarda do animal — que Diego, cansado de brigar por algo que nunca tinha realmente amado, assinou sem contestar.







