# Varanda na Rua das Camélias

Tenho oitenta e sete anos e me lembro exatamente do cheiro da cola de papel de parede que meu marido usava para forrar nosso primeiro apartamento em Vila Mariana. Barata, comprada aos poucos, no fiado da loja de material de construção. O Osvaldo não chegou aos quarenta e cinco. O coração dele parou numa quarta-feira, na hora do café da manhã, com um pedaço de pão na mão que ele nem chegou a morder.

Fiquei com quatro filhos. A caçula, a Cristina, ainda usava fralda de pano.

Não sobrou tempo para o luto. De manhã eu levava as crianças para a creche e a escola, depois ia para a lavanderia perto da Avenida Paulista, onde passava toalhas de mesa para restaurante, e à noite fazia faxina num escritório de contabilidade no terceiro andar. O elevador de lá estava quebrado desde setenta e nove, lembro bem porque foi justo o ano em que a Cristina nasceu.

Teve noite que minhas mãos tremiam de carregar balde de água. Mas de manhã o despertador tocava às cinco e quarenta e cinco e eu levantava. Sempre.

Os filhos cresceram depressa, porque precisaram. O mais velho, o Marcelo, com doze anos já fazia as compras sozinho e cuidava para que a Cristina almoçasse antes de eu voltar do segundo turno. Eu queria para eles algo a mais do que tive — que não precisassem contar moeda até o fim do mês.

O apartamento na Rua das Camélias, quarenta e dois metros quadrados, dois quartos com cozinha, comprei financiado, pagando dezoito anos. Os azulejos do banheiro racharam ainda nos anos noventa, mas nunca sobrou dinheiro para trocar. Fiquei lá quando os filhos foram saindo — primeiro o Marcelo, para Curitiba, atrás de emprego, depois a Cristina casou e foi morar no Tatuapé, dez minutos de ônibus, mas mesmo assim só ligava uma vez por semana, no máximo.

De noite eu sentava na varanda do tamanho de duas lajotas. Tinha vasos de gerânio comprados no supermercado e uma xícara velha da minha mãe, com um caco na alça, na qual eu tomava café com achicória, porque o café puro me fazia mal ao estômago. Do outro lado, na janela do térreo, a vizinha Dona Marisa criava um canário que cantava mais forte justamente no fim da tarde. Eu gostava disso.

Em setembro a Cristina ligou e disse que no domingo viriam todos juntos, que fazia tempo que não se viam, que dariam um passeio.

Fiquei contente. Vesti aquele suéter azul que o Marcelo tinha trazido de uma viagem, lá de fora.

Fomos de carro pela Marginal, entramos numa rua depois de Interlagos. Paramos em frente a um prédio com uma placa: "Residencial Outono Tranquilo". O Marcelo tirou do porta-malas minha mala — a mesma que ele tinha arrumado um dia antes, sem eu saber.

— Mãe, é melhor assim para a senhora. Sozinha já não está dando conta dessas escadas.

A Cristina me deu um beijo no rosto e disse que viriam todo domingo. Depois entraram no carro e foram embora, e eu fiquei parada com a mala em frente à porta automática, que naquela hora justo não queria abrir.

Agora meu dia se divide entre refeições às sete, treze e dezoito horas. A enfermeira, chamada Vânia, mede minha pressão e anota numa ficha. É gentil, às vezes me traz o jornal. Não sou maltratada — meu quarto é limpo, a comida é quente, os remédios vêm numa bandeja, dentro de uma caixinha plástica marcada com os dias da semana.

Mas não tenho minha varanda. Em vez dela, um corredor com uma lâmpada fluorescente que zune tanto que depois das vinte e uma horas eu escuto até com a porta fechada.

Sinto falta da xícara com o caco. Do canário da Dona Marisa. De poder decidir sozinha a que horas tomar o café e se ia levantar da cama antes das nove.

Dizem que preciso de cuidados. Talvez precise mesmo. Mas além de cuidados preciso também que alguém me pergunte o que penso antes de arrumar minha mala.

Nos primeiros três meses eu ligava para a Cristina todo domingo à noite, depois que terminava aquele programa de auditório na sala de convivência, que todo mundo assistia porque não tinha outra coisa passando. A Cristina sempre tinha pouco tempo. O Marcelo não veio nenhuma vez, se desculpava com o trabalho em Curitiba.

Até que num domingo, em novembro, quando lá fora chovia como se o céu tivesse desabado, me ligou a vizinha do quarto ao lado, Dona Rosa, e contou que a neta dela era advogada e vinha visitar na semana seguinte. Perguntou se eu queria conversar com ela.

A neta se chamava Renata, tinha, pelo que lembro, uns trinta e poucos anos e uma pasta cheia de papéis da avó. Sentou ao meu lado numa mesinha da sala de convivência, me ofereceu um biscoito do pacote que trouxe, e perguntou direto se o apartamento na Rua das Camélias ainda estava no meu nome.

Estava. Ninguém ainda tinha transferido, embora o Marcelo já tivesse perguntado duas vezes ao telefone, "se não valia a pena resolver isso, mãe, por precaução".

A Renata me explicou com calma o que era procuração e o que era doação, e que uma coisa e outra eu podia revogar ou simplesmente não assinar, até decidir sozinha o que fazer.

Em dezembro, duas semanas antes do Natal, pedi para a Vânia chamar um táxi. Ela perguntou para onde. Falei que era para o cartório na Rua Vergueiro, o mesmo onde, com o Osvaldo, tínhamos assinado o contrato do financiamento.

Fui sozinha, com uma pasta em que levava a matrícula do imóvel e a carteira de identidade. Redigi meu testamento — deixei o apartamento da Rua das Camélias para a Cristina e o Marcelo, meio a meio, como acabaria ficando de qualquer jeito, mas acrescentei uma cláusula: enquanto eu viver, ninguém, sem minha autorização por escrito, tem direito de vender, alugar ou tirar qualquer coisa de lá. Também pedi que ficasse registrado que a procuração para movimentar minha conta, a da aposentadoria, eu dava só para a Vânia, do lar de idosos — para pagar minha estadia e mais nada.

O tabelião, um senhor de óculos, perguntou se eu tinha certeza de não preferir deixar tudo já resolvido com os filhos. Respondi que era justamente por isso que estava deixando resolvido comigo mesma.

A Cristina ligou em janeiro, quando saiu a averbação da restrição no cartório de registro de imóveis. A voz dela saiu fina, atropelada.

— Mãe, o que a senhora fez, por que não avisou antes, o Marcelo diz que agora nem podemos alugar o apartamento para ajudar a pagar sua estadia aí…

Falei com calma que minha estadia eu pagava com a aposentadoria e com o que guardei em quarenta anos passando toalha de mesa dos outros, e que não precisava alugar nada, porque um dia eu ia voltar para lá.

Fez-se um silêncio do outro lado, daqueles em que só se ouve a respiração.

Em março vieram os dois, o Marcelo e a Cristina, pela primeira vez juntos desde aquele domingo do carro. Sentaram na minha frente, na sala de convivência, o Marcelo com uma folha impressa da escritura na mão.

— Mãe, a gente achou que seria mais seguro assim para a senhora.

— Mais seguro para quem, meu filho.

Não levantei a voz. Servi um chá da garrafa térmica que sempre deixo perto da cama, porque o daqui é fraco demais.

— Vocês me perguntaram alguma vez se eu queria estar aqui? Se talvez eu preferisse voltar para a Camélias, mesmo que a escada doesse mais que o elevador quebrado do prédio de vocês?

O Marcelo não respondeu. A Cristina chorou, mas eu não parei de tomar meu chá para consolá-la.

Em maio contratei uma cuidadora, a Dona Neusa, que vem três vezes por semana no apartamento da Camélias, paga pela minha conta, aquela mesma a que só a Vânia e eu temos acesso. Saí do lar de idosos em abril, quando o tempo esquentou. Os gerânios tinham secado durante o inverno, mas comprei outros, nos mesmos vasos de supermercado.

O canário da Dona Marisa ainda canta no fim da tarde. Sento na varanda com a xícara da minha mãe e escuto.

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Sixty & Me
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