Rosa Aparecida passava roupa alheia havia vinte anos quando o filho, Marcos, anunciou, com a boca cheia de arroz, que a empresa onde trabalhava ia substituir toda a equipe de atendimento ao cliente por um programa de computador.
—Não é só o meu emprego, mãe —disse ele, sem levantar os olhos do prato, mexendo o feijão de um lado para o outro sem comer. —É o meu também. Falam que em seis meses não vão precisar mais de gente atendendo telefone.
Rosa Aparecida largou o ferro sobre a tábua, no cômodo dos fundos que alugava atrás da lavanderia, na Rua Silva Teles, no Bom Retiro. Vinte anos recebendo por fora, sem carteira assinada, sem plano de saúde, passando as camisas de gerentes que nem sabiam seu sobrenome direito. E agora o filho, aquele que tinha feito tudo certo, que tinha entrado na Fatec e conseguido um emprego de escritório, com crachá e tudo, vinha dizer que dele também não iam mais precisar.
—Vão colocar uma máquina que fala igual gente —continuou Marcos. —Responde pergunta, resolve reclamação, tudo. Meu supervisor disse que a empresa já assinou o contrato com a fornecedora.
—E o que vão fazer com vocês?
—Recolocação, é o que dizem. —Ele riu sem vontade. —Como se tivesse pra onde recolocar.
Naquela noite Rosa Aparecida não dormiu. Ficou sentada na cama olhando o teto manchado de mofo, fazendo as contas que já sabia de cor: o aluguel, a conta de luz, os trezentos reais que mandava todo mês pra irmã em Governador Valadares, pros remédios da mãe. Marcos tinha vinte e seis anos, uma namorada com quem queria casar, um carro ainda no financiamento. Se perdesse aquele emprego de escritório, com plano de saúde e tudo, não tinha plano B. Ela não conseguiria sustentá-lo com o que ganhava passando roupa.
Passaram-se as semanas. Marcos chegava cada noite mais calado, contando como iam mandando embora os colegas aos poucos, um por semana, dois por semana, sempre com um sorriso de RH e uma caixa de papelão. A empresa tinha colocado telas novas na copa, onde antes eles almoçavam, e agora essas telas mostravam gráficos de "eficiência operacional" que subiam cada vez que um funcionário saía.
Rosa Aparecida começou a fazer uma coisa que não tinha contado pra ninguém: aos sábados, em vez de descansar, ia até a biblioteca do Parque da Luz e ficava duas horas na frente de um computador, aprendendo a usar os programas que o filho mencionava com medo. Não sabia bem pra quê. Só sentia que, se não entendesse o que estava devorando o emprego do filho, ia ficar parada vendo aquilo engolir tudo sem poder fazer nada.
A bibliotecária, uma mulher de uns cinquenta anos chamada Neusa, ajudou-a no começo com paciência de professora primária. Ensinou-a a escrever um e-mail, a preencher um formulário on-line, a usar um daqueles programas de inteligência artificial pra redigir cartas.
—Meu filho diz que isso vai tirar o emprego das pessoas —confessou Rosa Aparecida numa tarde, com as mãos ainda cheirando a goma de passar roupa.
—De alguns tira mesmo —disse Neusa, sem enfeitar a resposta. —Mas pra quem aprende a usar antes dos outros, às vezes abre uma porta.
Rosa Aparecida não entendeu direito o que aquilo queria dizer, mas guardou a frase como quem guarda uma moeda no bolso, por via das dúvidas.
Três meses depois, Marcos chegou em casa numa quinta-feira com a caixa de papelão nas mãos. Não disse nada ao entrar. Colocou a caixa em cima da mesa da cozinha, sentou-se e ficou olhando pra toalha de plástico com flores desbotadas.
—Foi a minha vez —disse por fim.
Rosa Aparecida sentou-se na frente dele. Ainda não o abraçou. Primeiro colocou a água pra ferver, como sempre fazia quando algo grave acontecia em casa, porque o ritual de fazer o café dava tempo pra pensar sem que as mãos tremessem.
—Tem um acordo de rescisão —continuou Marcos. —Dois meses de salário. E um curso gratuito da empresa, pra aprender a usar esses mesmos programas que tomaram nosso posto. Dizem que agora precisam de gente que saiba mexer neles, revisar o que escrevem, corrigir.
—E você vai fazer esse curso?
—Não sei, mãe. Tô cansado de me dizerem que tenho que me reinventar a cada dois anos.
Rosa Aparecida serviu o café em duas xícaras lascadas e sentou-se ao lado dele. Tirou da bolsa, sem dizer palavra, um caderno de espiral cheio de anotações à mão: prints impressos na biblioteca, listas de comandos, exemplos de cartas que tinha redigido com ajuda daqueles programas pra pedir renegociação do aluguel, pra escrever reclamação pro síndico, pra montar um currículo que nunca tinha tido.
—Eu comecei a aprender isso faz três meses —disse ela. —Não pra competir com você. Pra não ficar cega enquanto o mundo mudava sem me avisar.
Marcos pegou o caderno e foi virando as páginas devagar, reconhecendo a letra apertada da mãe, a mesma letra com que, durante vinte anos, ela tinha anotado num caderninho de contas quem devia quanto pelas camisas passadas.
—A senhora fez tudo isso sozinha?
—Nos sábados. Enquanto você achava que eu tava na missa.
Ele deu uma risada curta, a primeira em semanas.
—E agora, mãe?
—Agora você faz esse curso. E eu vou junto com você nos sábados, como até agora, só que dessa vez eu ensino o pouco que sei e você me ensina o que aprender lá. Entre nós dois, quem sabe a gente não consegue entender essa máquina antes que ela termine de entender a gente.
Marcos fechou o caderno e deixou-o em cima da caixa de papelão, cobrindo a etiqueta com o logo da empresa que já não o queria mais. Lá fora, na Silva Teles, um caminhão de entrega buzinava e alguém gritava pedindo passagem. Rosa Aparecida esticou a mão e desligou o fogo, onde a água já fervia sem que ninguém tivesse percebido.







