Roberto morreu na sexta-feira. Tinha cinquenta e oito anos. Ela só conseguiu segurar a mão dele no corredor do Hospital Mater Dei, porque na UTI não deixavam entrar.
O enterro foi na segunda-feira, no Cemitério do Bonfim. Chovia, aquela garoa fina de setembro, e uma vizinha trouxe um guarda-chuva porque Marisa tinha saído de casa sem nada. O padre falou algo sobre a ressurreição, e ela contava os anos de cabeça: trinta e um anos de casamento. Duas filhas, já adultas, morando fora — uma em Belo Horizonte mesmo, outra em Curitiba. As duas vieram, as duas foram embora na terça, porque trabalho, filhos, a vida segue.
E ela ficou sozinha no apartamento, onde no cabide ainda estava pendurada a jaqueta dele, aquela verde que ele vestia pra descer até a garagem.
Das primeiras semanas ela lembra em pedaços. De ter coado café pra duas xícaras antes de se dar conta. Da televisão falando de reajuste de conta de luz e ela sentada olhando pra tela sem ouvir uma palavra. A vizinha do andar de baixo, dona Íris, às vezes deixava um pote de caldo de mocotó na porta e ia embora sem tocar a campainha, pra não incomodar.
Começou a frequentar a Paróquia São Sebastião sem propósito nenhum, só pra estar em algum lugar. Sentava no último banco, onde ficava o cheiro de madeira velha e vela, e não rezava, só permanecia ali. Até que numa noite, já em outubro, com a chuva batendo na janela e o poste da rua piscando como lâmpada estragada, ela disse em voz alta, para o apartamento vazio, para nada em especial: Senhor, eu não vou aguentar isso sem o Senhor.
Nada mudou de uma vez. As contas continuaram chegando, o apartamento continuou grande demais pra uma pessoa só, a cama continuou com o lado vazio. Ela passou a conversar com o padre Anselmo depois da missa, rápido, poucas frases na saída da igreja. Ele não explicava por que Roberto tinha que morrer justo agora, justo assim. Só dizia que Deus nem sempre responde às perguntas, mas sempre fica. Ela pensou que era pouco, e mesmo assim voltava pra missa seguinte, e pra outra.
O inverno passou de algum jeito. Na primavera ela voltou a fazer bolo de fubá, o mesmo que fazia pro Roberto todo domingo, só que agora levava um pedaço pra dona Íris e deixava outro no parapeito pros gatos do quintal.
Em setembro, um ano depois daquele dia da ambulância, ela foi ao cartório perto da Praça da Liberdade. Não precisava — o inventário de Roberto já estava resolvido havia tempos. Foi pra mudar o testamento. Até então, o apartamento ficaria dividido em partes iguais entre as filhas. Agora ela queria incluir uma terceira cláusula: cinquenta mil reais de uma aplicação, a mesma que ela e Roberto tinham juntado ao longo dos anos pensando na velhice, deveriam ir pra pastoral da Paróquia São Sebastião, pro refeitório de pessoas sozinhas.
O tabelião, seu Aparecido, perguntou se ela tinha certeza de que não era demais. Ela nem teve tempo de responder — o celular tocou no bolso. Era a filha de Belo Horizonte, ligando por acaso, sobre um assunto completamente diferente, mas Marisa, segurando o telefone numa mão e a caneta na outra, contou direto o que pretendia fazer.
Do outro lado ficou um silêncio, depois a voz da filha, mais dura que o normal: que o pai não ia querer isso, que aquele dinheiro era o futuro delas, dos netos, que um refeitório de estranhos não era família. Marisa escutava olhando pra folha em cima da mesa do tabelião, pro lugar onde devia estar a assinatura dela. Respondeu só que o pai, durante trinta anos, colocava no envelope da dízima o que dava pra colocar, mesmo nos meses apertados, e que ela não ia interromper isso justo agora, quando sabia o quanto valia uma sopa deixada na porta de alguém sem cobrar nada em troca.
A filha ainda insistiu — que a irmã também devia opinar, que não era justo com elas. Marisa respondeu com voz firme que o apartamento continuava sendo das duas, que não estava tirando nada que fosse do pai delas, só devolvendo um pedaço do que tinha sido esforço dela com Roberto. A ligação terminou sem despedida, mas Marisa, depois de um instante de hesitação, puxou a caneta pra perto e assinou o documento com sua letra miúda de sempre.
Dobrou a folha, guardou no envelope e colocou na pasta que depois ficou na gaveta da cômoda, ao lado da foto do casamento com Roberto. À noite acendeu uma vela no parapeito, ali onde antes deixava o bolo pros gatos. A chama tremeu com o vento que entrava pela fresta da janela, se firmou de novo, e Marisa ficou olhando pra ela por um bom tempo, até o pavio começar a estalar baixinho na cera, enquanto lá fora passava o último ônibus da noite.







