**O maiô não tem idade**

Me chamo Silvana, tenho cinquenta e oito anos e tomo conta do quiosque do camping municipal de Bombinhas, aquele perto da trilha das conchas, com os banheiros azuis que descascam um pouco mais a cada verão. Vejo passar centenas de veranistas entre dezembro e fevereiro, e essa história eu vi se desenrolar bem debaixo dos meus olhos, no meu próprio caixa, entre um sorvete de casquinha e outro.

Tem uma senhora que vem todo ano há quase dez anos, Cláudia, cinquenta e quatro anos, professora de economia aposentada por tempo de contribuição. Ela aluga sempre o mesmo trailer, aquele perto das palmeiras, e usa sempre o mesmo maiô inteiro vermelho, decotado na lateral do quadril, que ela comprou, acho, numa loja do Shopping Itaguaçu, em Florianópolis. Nada de exagerado, mas ela usa com uma naturalidade que, visivelmente, incomoda gente.

Naquele verão, a filha dela tinha tirado uma foto na Praia de Mariscal, num domingo de janeiro em que o vento tinha dado uma trégua e o mar estava liso feito piscina. Cláudia ria, um casquinha de duas bolas — flocos e morango, sete reais a bola naquele ano — já derretendo entre os dedos. A filha postou a foto no Instagram com uma legenda bem simples: "Minha mãe de férias". Só isso.

Eu só fiquei sabendo do resto porque Cláudia me mostrou o celular numa manhã, entre um cafezinho e outro, esperando a chapa da tapioca esquentar — ela sempre pedia com coco, nunca com leite condensado, dizia que grudava demais no dedo pra virar página do livro. Debaixo da foto, dezenas de comentários. "Com a idade que tem, francamente." "Devia deixar isso pras mais novas." "Chega uma hora que a pessoa tem que se cobrir um pouco, né?" E o pior é que metade desses comentários vinha de mulheres. Mulheres da idade dela, algumas até mais novas.

Ela não respondeu nada. Só pousou o celular ao lado da tapioca, soprou o café que ainda fumegava, e me disse, assim, sem fazer drama: "Sabe, Silvana, acho que o que incomoda essa gente não é o maiô. É eu não parecer estar pedindo desculpas por ainda estar aqui."

Confesso que na hora não soube o que responder. Meu cachorro, um vira-lata velho que sempre fica rondando o quiosque esperando cair um pedaço de linguiça, tinha se deitado perto dos pés dela naquele momento, como se sentisse que era hora de ficar quieto.

Nos dias seguintes, nada mudou na vida dela. Continuou chegando pra pegar a tapioca às sete e meia, nadando até a boia amarela e voltando, se acomodando na canga com um livro de bolso todo enrugado pela maresia. Numa tarde, uma adolescente do camping vizinho, uns quinze anos, veio perguntar onde ela tinha comprado "esse maiô vermelho, é lindo demais". Cláudia sorriu — não aquele sorriso de foto, um sorriso de verdade, meio surpreso — e deu o nome da loja pra menina.

Foi aí que entendi que alguma coisa tinha se resolvido, sem alarde, sem ela precisar responder um único comentário na internet. Ela não apagou a foto. Não fechou a conta. Só continuou vivendo exatamente como antes, com a mesma canga, o mesmo livro, o mesmo maiô vermelho que já começava a desbotar de leve nos ombros de tanto sol.

No fim de fevereiro, antes de devolver a chave do trailer, ela passou pra me ver uma última vez. Me entregou um envelope: o endereço dela, pra eu mandar um cartão-postal do camping no inverno, como todo ano. E completou, ajeitando os óculos escuros no rosto: "Ano que vem eu trago o mesmo maiô. Talvez um vermelho ainda mais vivo."

Ela foi caminhando até o estacionamento, a mala com rodinhas batendo no cascalho, e o vira-lata velho a acompanhou por uns três metros antes de desistir e voltar a se jogar na sombra do quiosque.

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Sixty & Me
**O maiô não tem idade**