— A Irene ainda tá se fazendo de difícil, tem que dar um jeito nela. E olha só, quer ir pra esse tal de spa! E eu aqui, sozinha, me virando com a casa da praia — a filha ouviu a frase sem querer, parada no corredor.
— A senhora perdeu o juízo? — a mãe bateu a caneca na mesa com força, o café pulou e escorreu pela toalha xadrez, formando uma mancha marrom que ninguém ia limpar tão cedo. — O telhado tá caindo aos pedaços e a senhora quer viajar pra spa!
Irene estava parada no corredor de entrada, mala na mão, e pela primeira vez em anos não sabia dizer o que pesava mais: a culpa ou a vontade de ir embora de qualquer jeito. Os dedos apertavam a alça da mala como se ela sozinha pudesse se soltar e fugir escada abaixo. Lá fora, a chuva de agosto batia forte na janela do apartamento em Curitiba, escorrendo em riscos tortos pelo vidro, e na cabeça dela já tocava aquela voz de sempre: "Que filha normal abandona a mãe numa hora dessas?"
Dona Marlene estava sentada à mesa da cozinha, lábios apertados, magrinha, ressecada, olhando por cima dos óculos com aquele peso que só ela sabia dar ao silêncio. Agora ela ficava calada de propósito, e esse silêncio pesava mais do que qualquer bronca.
— Mãe, é só uma semana — Irene falou baixo.
— Uma semana — a mãe repetiu, no mesmo tom que usaria se a filha tivesse anunciado mudança pra outro país. — E a casa que desmorone, né?
Irene fechou os olhos. Lá fora a chuva engrossou.
Tudo tinha começado três anos antes, quando Irene chegou ao trabalho com os olhos vermelhos e não conseguiu explicar pra colega Denise por que as mãos tremiam tanto.
— Ele foi embora — ela finalmente conseguiu dizer. — Foi pra outra. Vinte e quatro anos, a menina.
Denise abraçou ela e falou:
— Que canalha.
Foi o suficiente. Naquele dia Irene não teria aguentado mais nenhuma palavra. O marido tinha saído de casa quase alegre, deixando pra trás o financiamento do carro sem quitar — o carro ele levou —, um monte de boletos atrasados e um bilhete colado na geladeira: "Desculpa, é melhor assim pra todo mundo."
Irene tinha quarenta e dois anos, e pela primeira vez em dezenove anos de casamento se viu sozinha num apartamento de dois quartos no bairro Água Verde, onde até o eco parecia uma cobrança.
A mãe reagiu do jeito dela.
— Eu já avisei — disse Dona Marlene ao telefone naquela primeira noite. — Aquele Ricardo sempre foi de olho comprido. Bom, pelo menos agora você vai ter tempo livre. Vem no sábado — o portão tá torto.
E Irene foi. Depois foi de novo, e mais outra vez. O portão virou canteiro, o canteiro virou pintura de parede, a pintura virou troca de encanamento. Todo fim de semana ela pegava o carro e ia até a casa da mãe em Piraquara, onde Dona Marlene a recebia com uma lista de tarefas escrita à mão, letra miúda, num caderno de espiral.
— Mãe, será que a gente não chama um encanador? — Irene sugeriu certa vez, olhando pra torneira enferrujada da área de serviço.
— Encanador? Pra gastar quanto? — Dona Marlene fez pouco caso com a mão. — Você tá com as mãos quebradas, é?
As mãos não estavam quebradas. Só doíam toda segunda-feira. Os colegas notavam. Um dia Denise perguntou direto:
— Quando foi a última vez que você tirou férias de verdade? Não esse negócio de fim de semana cuidando de quintal.
Irene pensou e não conseguiu lembrar. Por isso, quando antes do feriado de setembro o chefe entregou o envelope do bônus e disse "você merece", Denise já abriu o site da agência de viagens no computador.
— Olha isso. Lago, pinheiral, piscina aquecida. Uma semana. Não é caro.
— Eu não posso — Irene começou, do jeito de sempre.
— Pode sim — Denise cortou. — Você tem quarenta e cinco anos e merece pelo menos sete dias sem cabo de enxada na mão.
Irene comprou o pacote. Passou a noite sentada na cozinha olhando pro comprovante de reserva impresso, sorrindo — de um jeito estranho, meio sem jeito, como quem esqueceu como se faz isso. Mas assim que ligou pra mãe, o sorriso sumiu.
— Spa? — Dona Marlene repetiu, gelada. — Você sabe que meu telhado tá com goteira?
Depois daquela ligação, a mãe passou a telefonar todo santo dia, às oito da noite em ponto, como se fosse hora marcada. A voz ia carregando cada vez mais queixas, e a cada dia se somava uma desgraça nova à lista.
— Pingou de novo hoje — Dona Marlene anunciava no telefone. — A varanda alagou tanto que não dei conta de botar as bacias. O forro tá empapado, vai desabar em cima de mim a qualquer momento.
Irene ouvia, sentada na beira da cama, olhando pro teto do próprio apartamento — que, aliás, estava perfeito, seco, pintado ano passado. A mala continuava em pé no corredor, meio aberta, com duas blusas dobradas dentro e o protetor solar ainda com o lacre.
— Mãe, a senhora quer que eu chame alguém pra ver esse telhado? Pago do meu bolso, pode ser hoje mesmo.
— Não é isso que eu preciso — a voz da mãe tremia, mas era um tremor calculado, Irene já conhecia bem aquele timbre. — Eu preciso de você aqui. Não de dinheiro pra estranho consertar as coisas.
Foi Denise quem, na segunda-feira seguinte, bateu na mesa da sala de descanso da agência de contabilidade onde as duas trabalhavam havia oito anos.
— Você vai viajar. Ponto final. Se o telhado tá tão ruim assim, sua mãe tem dinheiro guardado, tem aposentadoria, tem seguro da casa. O problema não é o telhado, Irene. O problema é que ela não sabe te controlar de longe.
Irene ficou calada, mexendo no clipe de papel, dobrando e desdobrando até ele quebrar.
— E se acontecer alguma coisa de verdade? Se o teto cair mesmo?
— Então ela liga pros bombeiros, que é pra isso que eles existem. Você não é engenheira civil, Irene. Você é filha. E filha também tem direito de ir embora por sete dias.
Na quinta-feira, véspera da viagem, Irene foi até Piraquara levar uma bolsa de remédios pra mãe — pressão, colesterol, o de sempre — e encontrar de vez com aquela conversa que vinha adiando fazia dias. Encontrou a mãe na cozinha, sentada, o rádio ligado baixinho numa rádio AM que só tocava notícia de trânsito e propaganda de plano funerário. Tinha um prato de biscoito de polvilho na mesa, dos que a mãe fazia desde sempre, e o cheiro doce ainda pairava no ar.
— Mãe, amanhã de manhã eu vou embora. Volto no sábado que vem.
— Então vai — Dona Marlene respondeu, sem olhar pra ela, os olhos fixos no rádio como se ali tivesse alguma coisa mais interessante que a própria filha. — Eu não vou te impedir. Só espero que você durma bem sabendo que deixou sua mãe sozinha com a casa caindo.
— A senhora tem o número da Rosana, a vizinha. Ela falou que passa aqui todo dia. Tem o número do seu médico colado na porta da geladeira. Tem dinheiro guardado no envelope da gaveta, caso precise de alguém pra olhar o telhado.
— Eu não preciso de dinheiro — a mãe repetiu, e dessa vez a voz falhou de verdade, não fingido. — Eu preciso que minha filha não me abandone.
Irene sentiu o estômago revirar, aquela sensação antiga e conhecida, o gancho que a mãe sabia fisgar desde que ela era criança. Mas dessa vez ela respirou fundo, olhou pro relógio de parede — aquele com o ponteiro dos segundos emperrado desde o Natal — e falou:
— Eu vou, mãe. Amanhã cedo.
Na manhã seguinte, sexta-feira, o táxi chegou às sete e vinte. A chuva de agosto tinha dado uma trégua, o céu estava cinza-claro, e o ar cheirava a terra molhada, aquele cheiro de Curitiba depois da chuva que Irene sempre gostou. No prédio, o síndico varria a calçada e o cachorro da vizinha do 12, um vira-lata chamado Bolinha, latiu duas vezes pro motorista do táxi e voltou a dormir no capacho.
O celular tocou quando ela já estava com o cinto de segurança preso.
— É a Rosana — disse a voz do outro lado. — Sua mãe pediu pra eu ligar. Falou que passou muito mal de noite, dor no peito. Falou que é melhor você vir antes de viajar.
Irene fechou os olhos por um segundo. Depois abriu o WhatsApp e mandou mensagem pro número do médico da mãe, colado na porta da geladeira havia dois anos — ela tinha fotografado a etiqueta antes de sair, por precaução.
"Dr. Nogueira, aqui é a Irene, filha da Dona Marlene. Ela relatou dor no peito pra vizinha agora de manhã. A senhora pode passar aí ou mandar o SAMU dar uma olhada? Estou de viagem marcada, mas fico à disposição pelo telefone."
A resposta veio em cinco minutos: "Já mandei a ambulância como precaução. Provavelmente é ansiedade, a pressão dela também não está alta segundo o último exame. Vou acompanhar e te aviso."
Irene mandou a mensagem pra Rosana agradecendo, avisou que o médico já tinha sido acionado, e guardou o celular na bolsa. O taxista, um senhor de uns sessenta anos com um terço pendurado no retrovisor, perguntou se estava tudo bem.
— Tá — Irene respondeu, e dessa vez a voz saiu firme. — Pro aeroporto, por favor.
Uma hora depois, já no saguão de embarque, o celular vibrou de novo. Era Dr. Nogueira: "Exame normal. Pressão estabilizada. Ela está bem, só ficou agitada. Pode viajar tranquila."
Irene guardou o celular, comprou um café no quiosque e sentou numa poltrona perto do portão de embarque. Abriu a bolsa, tirou uma pasta fina de plástico que tinha trazido sem nem saber direito por quê, e dentro dela estava o comprovante de uma transferência que ela tinha feito na semana anterior: oito mil reais, valor do orçamento pra troca completa do telhado da casa da mãe, pago direto pra construtora, com nota fiscal e tudo, contratada por ela mesma depois de duas cotações. O serviço estava marcado pra começar na segunda-feira seguinte, enquanto ela estivesse na pousada à beira do lago em Campos do Jordão.
Ela dobrou o comprovante, guardou de volta na pasta e telefonou pra mãe.
— Mãe, o médico falou que a senhora tá bem. Fico feliz.
— Você foi mesmo — a voz da mãe veio baixa, sem aquele tom de antes.
— Fui, mãe. E segunda-feira a empresa que eu contratei vai começar a trocar o telhado inteiro. Já paguei tudo. A Rosana vai deixar eles entrarem, ela tem a cópia da chave.
Do outro lado da linha ficou um silêncio comprido, diferente daquele silêncio pesado da cozinha, semana passada. Era outro tipo de silêncio.
— Você não precisava fazer isso — a mãe falou, por fim.
— Eu sei que não precisava. Fiz porque quis. Agora, mãe, eu vou desligar o celular, porque meu voo vai chamar. Te ligo quando chegar.
Irene desligou, guardou o telefone no fundo da mala de mão e ficou olhando o avião branco e azul da companhia entrando na pista pela vidraça do saguão. Não sentiu vontade de chorar, nem de sorrir largamente. Só sentiu o peso da mala nos ombros diminuir, como se alguma coisa que vinha carregando fazia três anos tivesse finalmente sido colocada no chão.







