O contrato que ela imprimiu

Eu estava parado na Avenida do Contorno fazia cinquenta e cinco minutos quando o aplicativo de trânsito avisou que tinha piorado. Dava para ouvir a buzina de um ônibus coletivo logo atrás, e o motorista da van escolar na minha frente já tinha desistido de esperar — tirou o cinto e começou a mexer no celular. Abaixei o volume do rádio. As meninas dormiam nas cadeirinhas, atrás.

Era terça-feira. A Alice e a Sofia tinham completado três meses na segunda, e a Fernanda tinha marcado a pesagem no posto de saúde para as oito da manhã. Eu prometi que levava, mas o escritório me chamou para uma reunião às sete e meia. O assunto era "reestruturação de pessoal." Eu sabia o que aquilo significava desde que o Caio, meu colega de setor, foi demitido em novembro.

Vi pelo retrovisor. A Fernanda balançava o corpo para a frente e para trás, aquele movimento exato de quem está exausta. A Alice dormia com o pescoço torto de um jeito que me deu aflição. A Sofia segurava a ponta da manta com força. A fralda da Alice estava frouxa — dava para ver o elástico enrolando na barriga.

— A gente vai chegar atrasada — disse a Fernanda, sem tirar o fone do ouvido.

— Eu sei.

— Não é para saber, Rafael. É para me deixar no posto.

O semáforo abriu. Um motoboy costurou pelo corredor, quase levou o retrovisor. A Fernanda soltou uma risada curta, daquelas que não têm graça nenhuma.

— Você não dormiu.

— Dormi.

— Não dormiu. Você fica com a cara inchada quando não dorme.

Ela virou o vidro. O reflexo do letreiro de uma farmácia em neon azul cortou o para-brisa. A Fernanda sempre reparava nesses detalhes — o letreiro, a luz, a cor. Eu reparava no marcador de gasolina, que estava na reserva, e no boleto do cartão que tinha deslizado do porta-luvas até debaixo do banco dela na última freada.

Nos últimos três meses, a gente mal se falava sem que uma das bebês chorasse. A Fernanda dizia que eu "não participava." Eu dizia que ela "não entendia" a pressão no serviço. A verdade era mais simples e eu não conseguia falar: eu estava escondendo uma pilha de boletos vencidos no porta-luvas e vendendo minhas câmeras antigas no Enjoei para cobrir o cartão de crédito. A Fernanda não sabia que o meu salário de engenheiro civil, que já tinha sido confortável, estava parcelado em três cartões diferentes desde o nascimento das meninas.

No supermercado da Savassi, dois dias antes, a coisa estourou. A Fernanda empurrou o carrinho sozinha. Eu andava ao lado dela com o telefone na mão porque o sócio do escritório tinha mandado uma mensagem: "Precisamos conversar sobre reajuste."

— Pode encher o carrinho — falei, sem levantar o rosto.

— Você prometeu ajudar a escolher.

— Estou resolvendo uma emergência.

Ela parou na frente da gôndola de fraldas. Ficou uns cinco segundos imóvel, com o carrinho torto, e depois pegou dois pacotes. Vi o preço na etiqueta: R$ 74,90 cada um. A Alice começou a choramingar. A Fernanda enrolou o cordão da chupeta no dedo, girando uma, duas, três vezes.

No caixa, a moça passou tudo. A tela mostrou: R$ 322,10. Fiz a conta de cabeça. O salário não caía até sexta. Eu tinha R$ 46 no banco. A fatura do cartão estava estourada. A moça tinha acabado de passar o primeiro pacote de fraldas.

— Tira o outro — falei.

A Fernanda me encarou. O olho direito dela estava meio fechado, aquele jeito de quem está segurando o choro desde cedo.

— Rafael, tem fralda no carrinho.

— Eu disse para tirar.

A caixa ficou parada, com o pacote na mão. A moça ao lado, no caixa dois, parou de bater preço para observar. O segurança da porta aproximou-se da saída. Eu passei o cartão. O total caiu para R$ 247,20. A Fernanda empurrou o carrinho sem dizer nada. O segurança ficou me acompanhando até o estacionamento.

Naquela noite, depois que as meninas dormiram, a Fernanda desligou a televisão da sala e sentou na poltrona. Ela não usava aliança. Reparei porque a mão dela estava pousada no braço do sofá, e o dedo estava branco no lugar em que a aliança ficava.

— Precisamos conversar — ela disse.

— Sobre o supermercado.

— Não. Sobre você.

Ela falou com uma voz tão baixa que o ruído do ventilador de teto quase engoliu as palavras. O boleto do condomínio estava em cima da mesinha, virado para baixo.

— Eu quero voltar a trabalhar — ela continuou.

Senti um alívio que não esperava. Era o que eu vinha tentando dizer há semanas, sem conseguir. E ela, naquele momento, estava dizendo que voltava.

— Mas a partir de agora — ela disse —, tudo é cinquenta por cento. Despesas, trabalho, noites. Metade de tudo.

Eu me aprumei no sofá. Tinha passado a última semana ensaiando essa mesma frase para dizê-la a ela. Ela a tinha tirado da minha boca. Só que a minha versão da frase vinha com uma confissão embutida — o porta-luvas cheio de papel, os três cartões, o Enjoei aberto no celular às duas da manhã. A versão dela não sabia de nada disso. E eu ia deixar assim.

— Aceita? — ela perguntou.

— Aceito.

Ela levantou e foi até o quarto. Ouvi o clique de uma gaveta. Voltei a prestar atenção quando ela reapareceu na porta, carregando uma pasta de elástico, daquelas de cartório. Dentro da pasta, um documento de duas folhas, já impresso, com um clipe de metal na ponta. A dobra do papel estava um pouco amassada. Era impresso há dias.

— Achei que você fosse tocar nesse assunto semana passada — ela disse. — Já estava pronta.

Ela me entregou o papel e a caneta que eu procurava fazia uma semana.

— Então assina aqui.

Peguei o documento e li a parte de cima: "ACORDO DE COPARENTALIDADE E DESPESAS MENSAIS." Embaixo, uma tabela. Na primeira linha: "Fraldas: R$ 280 por mês. Metade sua: R$ 140." Na segunda: "Fórmula: R$ 410. Metade: R$ 205." Na terceira: "Plano de saúde suplementar para as gêmeas: R$ 590. Metade: R$ 295." As somas subiam até um total destacado em negrito: R$ 1.853,40.

Fiz a conta que já sabia de cor antes mesmo de terminar de ler: R$ 46 no banco, três cartões estourados, o boleto do condomínio virado para baixo em cima da mesinha. R$ 1.853,40 dividido por dois não cabia em lugar nenhum da minha vida naquele momento. Não cabia nem se eu vendesse o resto das câmeras, nem se o sócio aprovasse o tal reajuste — que eu sabia, no fundo, que não vinha.

A caneta ficou parada a um centímetro do papel. Podia falar agora. Podia dizer "Fernanda, eu não tenho esse dinheiro", podia abrir o porta-luvas ali mesmo, de madrugada, e despejar os boletos em cima da mesinha ao lado do boleto do condomínio. Em vez disso pensei na reunião de sete e meia, no assunto "reestruturação", no Caio limpando a mesa dele em novembro com uma caixa de papelão que eu mesmo ajudei a carregar até o elevador. Pensei que talvez a reunião resolvesse uma coisa e a outra não precisasse ser dita. Assinei embaixo do total em negrito.

Ao lado da tabela, uma agenda semanal. Segunda: "Banho das gêmeas: Fernanda." Terça: "Banho: Rafael." Quarta: "Mamadeira da madrugada: Fernanda." Quinta: "Mamadeira da madrugada: Rafael." Sexta: "Pediatra 9h30: Rafael acompanha." E assim por diante. A linha de quinta-feira estava marcada com marca-texto amarelo: "2h40 — mamadeira das duas."

A Fernanda me entregou a caneta outra vez, para eu rubricar cada página.

— A partir de amanhã — ela disse —, a noite é sua.

Uma das meninas chorou no quarto. A Sofia, pela tosse curta. Depois a Alice acordou também, e o choro das duas se misturou com o ruído do chuveiro no banheiro do vizinho de cima. A cachorra da vizinha começou a latir. O relógio da cozinha marcava meia-noite e sete.

Eu fiquei com o contrato na mão. Aquela pasta não tinha sido aberta naquele momento. Ela vinha sendo preparada há dias, talvez desde o dia do supermercado, talvez antes. A Fernanda não estava reagindo à minha proposta. Estava me mostrando o que já tinha decidido fazer — e eu tinha acabado de assinar embaixo de um número que não existia na minha conta.

— Rafael — a voz dela veio da porta do quarto —, não é a minha noite.

Peguei o celular e abri o despertador. Programei para 2h40. Na tela ainda estava aberto o aplicativo do banco, com o saldo em vermelho. Fechei sem olhar de novo e fui até o quarto das meninas com o contrato ainda na mão e a caneta no bolso.

De volta à Avenida do Contorno, o carro ainda não tinha andado. O aplicativo mostrava outros doze minutos de fila até o posto de saúde. Abri o e-mail no celular, sem soltar o volante: o convite da reunião das sete e meia estava lá, assunto "Reestruturação — Alinhamento de equipe", com o nome do gerente de RH em cópia. Eu ia chegar atrasado para as duas coisas — para a pesagem das meninas e para saber se ainda tinha emprego. Guardei o celular no porta-luvas, em cima da pilha de boletos, e fechei a tampa.

— Vai dar tempo? — perguntou a Fernanda, olhando para a fila de carros.

— Vou te deixar primeiro. Depois eu me viro.

Ela não perguntou mais nada. O trânsito andou uns metros e parou de novo. No banco de trás, a Alice resmungou no sono e a Sofia virou o rosto para o lado da irmã. Faltavam ainda catorze horas para as 2h40 da manhã seguinte, quando o despertador ia tocar e eu ia levantar sozinho, pegar a mamadeira na cozinha e assinar, sem caneta nem papel dessa vez, apenas com o corpo, a primeira parcela de um contrato que eu não sabia como ia pagar.

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Sixty & Me
O contrato que ela imprimiu