Tenho quarenta e três anos e moro em Curitiba há quinze. Foi há três semanas, numa terça de outubro, que uma coisa pequena me fez pisar no freio de uma vida inteira em disparada.
Não teve drama nenhum. Só um daqueles instantes bobos que ficam entalados no peito. Eu tinha ido resolver uns documentos no cartório perto da casa dos meus pais, no bairro Água Verde, e resolvi passar lá só de rapidinha, sem avisar.
Quando toquei a campainha, minha mãe quase deixou cair a bandeja que segurava. Deu um pulo, abriu a porta com os olhos arregalados, como se eu tivesse chegado de Portugal e não de quinze minutos de carro.
— Nossa, Marina! Se eu soubesse que vinha, tinha arrumado a casa direito!
E lá foi ela, do jeito de sempre, alisando o cabelo às pressas, puxando a barra da blusa, se ajeitando toda — como se precisasse causar boa impressão na própria filha. Meu pai apareceu vindo da sala. Andava bem mais devagar do que eu guardava na memória, arrastando um pouco o chinelo no piso frio. Mas o sorriso continuava o mesmo: aquele que sempre me tirava um peso enorme das costas. Só que dessa vez tinha algo atrás daquele sorriso — não era só alegria de me ver. Era como se os dois estivessem precisando de mim há tempos e não tivessem dito nada.
Sentamos na cozinha, debaixo daquele lustre amarelado que pisca desde antes de eu casar. Falamos de tudo: do pé de pitanga no quintal que não dá fruta esse ano, dos vizinhos novos que compraram um carro branco enorme, da tampa da panela de pressão que sumiu de novo — e do caderno de receitas da minha mãe, aquele com capa de fórmica azul, que ela jura que guarda sempre na segunda gaveta e nunca está lá.
De repente o tempo travou. Meu pai se levantou para pegar um copo d'água na pia. Por um segundo, apoiou a mão na bancada. Não cambaleou, não caiu, nada de susto — só ficou parado ali, um instante a mais do que devia, como quem aprendeu a dosar as próprias forças a cada passo.
Fiquei olhando tempo demais, e minha mãe percebeu. Puxou o pano de prato do ombro, torceu nas mãos e falou baixinho, sem me encarar:
— Não é nada não. É que seu pai já tá ficando velho, só isso.
O homem que me criou sozinho enquanto ela trabalhava dobrado na fábrica de calçados do bairro. O que nunca faltou numa apresentação de escola, num aniversário, num momento importante da minha vida. Estava envelhecendo bem ali, na minha frente, enquanto eu vivia correndo atrás do próprio rabo.
— Ele foi no cardiologista mês passado? — perguntei, já sabendo a resposta pela forma como ela dobrou o pano outra vez.
— Ele… ele disse que ia. — Minha mãe abriu a torneira só pra ter o que fazer com as mãos. — Faz uns dez meses que ele marcou a consulta no Angelina Caron. Não foi. Falou que não tinha tempo, que eu ficava preocupada à toa.
— Dez meses, mãe?
— Ele não quis te contar. Achou que você ia brigar com ele.
Não briguei ali. Mas engoli em seco e guardei aquilo no peito feito uma pedra.
Depois do jantar — arroz, feijão e aquela linguiça que minha mãe frita demais de propósito, porque sabe que eu gosto assada — meu pai insistiu em me acompanhar até o portão. Pôs a mão no meu ombro. Anos atrás aquela mão era firme, um porto seguro de verdade. Agora pesava leve, quase de mentirinha.
— Não esquece da gente, filha. Vem mais vezes — pediu, com a voz meio embargada. — Pra nós os dias já tão voando rápido demais.
— Pai, por que você não foi na consulta?
Ele desviou o olhar pro portão de ferro que pintou de verde vinte anos atrás e nunca mais repintou.
— Não quis dar trabalho pra ninguém.
Entrei no carro. Fiquei sentada uns bons dez minutos sem ligar o motor.
Naquela mesma noite liguei pra minha irmã, Cristiane, que mora em Londrina e não via meu pai fazia quatro meses. Contei tudo — a mão na bancada, os dez meses sem consulta, o pai escondendo do próprio médico por orgulho.
— Eu sei, Marina — ela disse, e a voz saiu dura, cortada. — Eu sei e não vou.
— Não vai o quê? Cristiane, o pai tá doente e escondendo isso da gente.
— Não vou ficar levando ele em médico igual você quer que eu faça. Tenho as crianças, tenho o trabalho, tenho… — ela parou no meio da frase.
— Tem o quê?
— Tenho raiva dele, Marina. Você esquece rápido, mas eu não esqueço da vez que ele não foi na minha formatura porque tava "cansado". Agora ele fica cansado só de levantar da cadeira e você quer que eu deixe tudo pra cuidar?
Fiquei calada. Não era só sobre consulta médica.
— Não te pedi pra esquecer nada — falei por fim. — Só te pedi pra vir na terça, sentar na mesa com ele, nem que seja calada. O resto a gente resolve depois.
Ela desligou sem responder.
Passei a semana seguinte pensando no caderno de receitas perdido na gaveta errada, na mão do meu pai na bancada, nos dez meses de consulta adiada. Voltei no sábado com uma agenda pequena, dessas de couro sintético que vendem na papelaria da esquina, e sentei meus pais na mesa da cozinha. Abri e escrevi, na primeira página: "Terças e sábados — Marina." Debaixo, deixei uma linha em branco.
— É pra Cristiane escrever o dia dela — falei. — Se ela quiser.
Liguei de novo pra Cristiane só na quinta seguinte. Ela atendeu no segundo toque, como se estivesse esperando.
— Marca uma consulta nova pro pai — falei, sem rodeios. — Eu levo ele. Só preciso que você ligue pro Angelina Caron amanhã de manhã, porque o convênio tá no seu nome.
Silêncio do outro lado. Depois, a voz mais baixa:
— Ele sabe que eu tô… que eu ainda guardo mágoa?
— Não sei. Pergunta pra ele.
Ela não respondeu na hora. Só dois dias depois me mandou uma mensagem com o número do protocolo da consulta marcada.
Três semanas depois, voltei numa terça à noite, sem avisar de novo. Encontrei minha mãe com o caderno de receitas em cima da mesa, aberto na página do pastel de nata que ela faz desde que eu era criança, a letra já meio apagada de tanto uso. Meu pai estava sentado ao lado dela, com o resultado do exame novo dobrado debaixo do porta-copos, rindo de alguma história antiga sobre o carro velho que teve nos anos oitenta.
Na cadeira vazia, do outro lado da mesa, tinha um prato posto. Minha mãe viu que eu reparei.
— É pra Cristiane. Ela ligou avisando que vem no sábado.
Meu pai parou de rir, olhou pro prato e depois pra mim, e não disse nada — só esticou o braço e virou, devagar, a página do caderno pro pastel de queijo, aquele que Cristiane sempre pedia quando era pequena.







