A geleia de figo da Dona Neuza

Minha nora riu quando abriu a despensa e viu os potes de geleia de figo e o molho de tomate que eu tinha acabado de engarrafar. Falou que aquilo era "coisa de vó antiga" e que ela nunca ia perder um fim de semana inteiro na cozinha só pra encher vidro. Eu não respondi nada. Continuei lavando os potes na pia. Meses depois ela voltou atrás naquelas palavras, e eu vou contar como foi.

Me chamo Neuza, tenho 67 anos e moro numa casinha de fundo de quintal em Itu, interior de São Paulo, herdada dos meus pais. Tem um varal que range quando venta, um pé de acerola no canto do quintal e uma despensa que meu marido, Deus o tenha, sempre dizia que era grande demais pro tanto de bugiganga que eu guardava ali. Desde que ele morreu, faz quatro anos, eu continuo fazendo conserva, só que em quantidade bem menor. Em janeiro, quando o tomate fica barato na feira da praça, eu compro uma caixa inteira. Meu cunhado sempre traz figo do sítio dele lá pelos lados de Cabreúva. Faço molho, umas dez, doze potes de geleia, e às vezes um pimentão em conserva, daqueles que dão trabalho mas rendem o ano todo. Não faço porque ache que vai faltar comida no mercado. Faço porque gosto do cheiro que toma a casa inteira, e porque foi minha mãe quem me ensinou, numa cozinha de fogão a lenha que já nem existe mais.

Meu filho Rodrigo mora em Campinas com a esposa, Bianca, e a filha das duas, uma menina de sete anos chamada Lívia. Um domingo eles vieram almoçar aqui em casa, e enquanto eu procurava uma garrafa de suco na despensa, Bianca ficou olhando as prateleiras cheias de vidro. Começou a rir.

— Neuza, isso aqui parece despensa de sítio antigo. Eu jamais ia perder um fim de semana fazendo isso tudo. A gente vive em outra época, sabe.

Ela não disse com má vontade, pelo menos eu quero acreditar que não, mas tinha um tom ali, um desprezinho que às vezes machuca mais que xingamento. Expliquei que ninguém me obrigava a nada e mudei de assunto, fingindo procurar a tal garrafa que já tinha achado. Na hora de ir embora, ofereci dois potes de molho, porque Rodrigo sempre gostou muito. Bianca respondeu que não precisava, que eles compravam um orgânico em Campinas, numa feira chique perto do apartamento, que era muito bom. Guardei os potes de volta na prateleira.

Dali em diante parei de oferecer minhas conservas pra eles. Não fiquei com raiva, só achei sem sentido insistir com quem não queria.

Passaram uns meses. Em julho, Bianca começou a trabalhar até mais tarde porque uma colega do escritório saiu de licença. Rodrigo também chegava cansado, e os dois viviam brigando pra decidir o que fazer de jantar. Numa quarta-feira meu filho me ligou perguntando como era que eu fazia aquele molho de verão. Expliquei que não tinha segredo, mas achei estranho ele perguntar do nada. Aí ele confessou: tinha levado escondido, semanas antes, um dos últimos potes que eu tinha dado no ano anterior — ele achou lá no fundo do freezer da casa dele. Bianca usou pra fazer macarrão, e Lívia falou que estava muito mais gostoso que o comprado.

Fiquei com vontade de rir, mas não comentei nada com ele.

Duas semanas depois os três apareceram pra almoçar de novo, um sábado. Quando Bianca entrou na cozinha, trazia uma sacola com vários potes vazios lavados. Colocou tudo em cima da mesa e perguntou se ainda tinha molho sobrando.

— Pensei que isso fosse coisa de outra época — respondi, sorrindo, sem tirar os olhos da sacola.

Ela ficou vermelha. Rodrigo soltou uma gargalhada, e ela acabou rindo também, meio sem graça. Depois fez uma coisa que eu não esperava: pediu pra eu ensinar ela a fazer no verão seguinte. Disse que não queria encher quarenta potes nem passar dois dias trancada na cozinha, mas tinha descoberto que ter comida pronta guardada resolvia muita noite corrida. E Lívia vivia pedindo "o molho da vó".

Em janeiro deste ano Bianca chegou num sábado de manhã com roupa velha, tênis surrado e uma caixa de potes novos comprados no armarinho da cidade. No começo ficava olhando pro relógio a cada dez minutos. Depois foi perguntando por que eu colocava a cebola antes, quanto tempo deixava reduzir, como eu sabia que o ponto estava certo. Fizemos bem menos do que eu faria sozinha, e mesmo assim as duas ficamos exaustas. Enquanto limpávamos a bancada, ela falou:

— Agora eu entendo por que aquilo que eu disse te incomodou.

Respondi que não foi ela não querer fazer conserva que me incomodou. Cada geração organiza a casa do jeito que quer, isso eu respeito. O que doeu foi ela tratar como perda de tempo uma coisa que pra mim tinha valor — trinta e dois anos fazendo a mesma receita, desde que casei com o pai de Rodrigo. Bianca ficou calada um instante, mexendo na tampa de um pote, e depois admitiu que muitas vezes confundia "antigo" com "inútil".

Ela continua comprando quase tudo no mercado, não virou nenhuma fanática de conserva da noite pro dia, e eu também não quero isso. Mas todo mês de janeiro a gente separa uma manhã de sábado pra fazer molho juntas. Ela traz os potes vazios, eu ponho os tomates da feira. Lívia cola uns adesivos coloridos nas tampas pra diferenciar um do outro, sempre errando a cor e rindo dela mesma. E toda vez que Bianca leva uma caixa pra Campinas, a gente lembra daquele primeiro domingo na minha despensa — e ela sempre pergunta, brincando, se ainda tenho aquela cara de "eu falei".

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