Regina Bezerra tinha cinquenta e sete anos e uma tesoura de aço que herdara da mãe. Trabalhava numa loja de roupa de festa na Rua Aurora, no centro de Recife, desde os vinte e dois — quase toda a vida costurando vestido de quinze anos, terno de casamento, fantasia de bloco de carnaval. O cheiro de tecido novo e de pó de giz de alfaiate era mais familiar pra ela do que o próprio quarto.
Quando o filho dela, Diego, montou a agência de festas com o dinheiro que ela emprestou — vinte e três mil reais, guardados nota por nota durante anos —, Regina achou que estava investindo no futuro da família. Assinou o contrato de sócia minoritária sem ler direito, confiando no genro que cuidava do "lado jurídico".
Passou um ano e meio. A agência cresceu, fechou contrato com dois salões de festa em Boa Viagem, começou a faturar puxado principalmente em dezembro e em época de São João. Só que o pró-labore de Regina — os oitocentos reais mensais combinados no papel — foi diminuindo. Primeiro veio quinhentos. Depois trezentos. Num mês de agosto, não veio nada, e o genro, Marcelo, disse que "era pra reinvestir no negócio, mãe, a senhora entende".
Ela entendia. Ela sempre entendeu tudo, era o trabalho dela entender: entender medida de quadril, entender caimento de tecido, entender cliente nervosa três dias antes do casamento. Só não entendia por que, numa tarde de terça-feira, tinha ido pegar o extrato do CNPJ no contador e descoberto que sua participação de trinta por cento tinha virado cinco.
— Foi só uma reorganização societária, dona Regina — disse o contador, Sr. Aldenor, ajeitando os óculos, sem coragem de olhar direito pra ela. — O senhor Marcelo assinou os papéis com a procuração que a senhora deu.
A procuração. Aquela que ela tinha assinado dois anos antes, achando que era só pra ele "resolver umas burocracias" enquanto ela trabalhava dobrado pra cobrir as faltas dele na agência.
Regina não gritou. Não chorou na frente do contador. Voltou pra loja, pendurou o avental no gancho de sempre, e ficou olhando pro carretel de linha vermelha por um tempo comprido, sem cortar nada.
Naquela noite tinha jogo do Sport na Ilha do Retiro, e o barulho dos fogos vinha até o apartamento dela, na Encruzilhada. Ela abriu a gaveta da cômoda, tirou uma pasta plástica velha, das que compram em papelaria de bairro por dois reais, e começou a separar documento por documento: o contrato original de sócia, o comprovante das vinte e três mil transferidas em três parcelas pro CNPJ de Marcelo, os recibos que ela tinha guardado — porque costureira boa guarda tudo, até o retalho que sobra.
No dia seguinte ligou pra doutora Fabiana Nogueira, advogada que tinha feito o vestido de debutante da filha dela cinco anos antes e nunca cobrou o suficiente por aquilo. Marcou horário no escritório perto da Avenida Conde da Boa Vista.
— A senhora tem prova de que o dinheiro era seu, dona Regina? — perguntou a advogada, folheando os recibos.
— Tenho os recibos, tenho o extrato do banco, tenho testemunha. Minha vizinha foi comigo no banco fazer o TED.
— Então a senhora tem caso pra anular a procuração por abuso de confiança e reaver sua cota societária. Pode demorar, mas tem caso.
Diego, o filho, só descobriu tudo quando a mãe pediu pra ele assinar como testemunha na notificação extrajudicial que ia pro genro. Ficou calado um instante, olhando o papel timbrado do escritório de advocacia, depois falou baixo:
— Marcelo falou que era pra proteger o negócio de imposto, mãe. Eu não sabia que tinha tirado a senhora assim.
— Eu também não sabia, meu filho. Até ler.
A audiência de conciliação foi numa sala pequena do fórum de Recife, no bairro de Santo Amaro, numa quarta-feira de manhã. Marcelo chegou de camisa social, com o mesmo sorriso de quando pedia dinheiro emprestado "só até o fim do mês". Sentou de frente pra sogra, ajeitou a gravata.
— Dona Regina, a senhora não precisa disso, a gente resolve em casa, isso é coisa de família…
— Coisa de família era eu costurar até meia-noite pra juntar vinte e três mil reais, Marcelo. Isso não é mais coisa de família. Isso é dívida.
A juíza leiga que conduzia a conciliação pediu que ele apresentasse a movimentação financeira da agência dos últimos dezoito meses. Marcelo gaguejou, disse que precisava de mais tempo, que os documentos estavam com o contador. A doutora Fabiana entregou então cópia do extrato bancário que Regina tinha conseguido direto na agência: mostrava retiradas mensais de Marcelo, muito acima do combinado, enquanto o pró-labore da sogra ia minguando até sumir.
Não teve grito, nem cena de novela. Teve só o silêncio de quem sabe que perdeu o blefe. No fim do acordo assinado ali mesmo, Marcelo devolveu os trinta por cento da cota original de Regina, mais o pró-labore atrasado de sete meses — três mil e quinhentos reais — parcelado em seis vezes, com a advogada de Regina como fiscal do cumprimento.
Regina levou o papel dobrado dentro da bolsa de tecido que ela mesma tinha costurado, e no caminho de volta pra loja, na Rua Aurora, entrou na papelaria da esquina e comprou uma pasta nova, dessa vez de couro sintético, pra guardar o contrato reformulado. A antiga, a plástica surrada, ela não jogou fora — colocou na última gaveta da cômoda, debaixo das linhas de bordado, como quem guarda o forro de um vestido que ninguém mais vai ver, mas que segurou a peça inteira por dentro.
No mês seguinte, o pró-labore caiu direitinho na conta, dia cinco, sem falta. E quando Marcelo ligou uma vez reclamando que "a fiscalização da advogada tava atrapalhando a gestão", Regina simplesmente respondeu que a linha estava ocupada com um cliente, e desligou.







