Dona Marlene tinha setenta e um anos e uma régua de madeira pendurada atrás da porta da cozinha, daquelas que usava desde menina pra medir a chuva no quintal de Garanhuns. Foi ela quem contou essa história pra mim, sentada na varanda de sapé, enquanto eu passava recolhendo leite pras famílias do assentamento, feito faço há nove anos, sempre antes das seis, porque depois disso o sol já castiga e o leite azeda no pote.
O sítio era do seu Osvaldo, marido dela havia quarenta e três anos, um homem calado que só falava de plantação e de futebol, nessa ordem. Eles tinham quatro hectares de milho e feijão perto de Garanhuns, no agreste de Pernambuco, e viviam do que a terra dava — sem luxo, sem sobra, mas sem fome também.
O filho deles, Adilson, tinha ido pra Recife trabalhar numa concessionária de carros, dessas que vendem picape zero na BR-232, e mandava notícia só no Natal. A filha, Rosineide, ficou por perto, casada com um mecânico, morando numa casinha de dois cômodos a quinze minutos de bicicleta.
Foi Rosineide quem primeiro notou. Chegou lá pra visitar o pai numa terça de junho, mês da colheita de inverno, e viu ele parado na beira da roça, olhando pra uma faixa de milho que não tinha sido cortada.
— Pai, esqueceu esse pedaço?
— Não esqueci, não.
E não falou mais nada. Só voltou pra dentro de casa e ligou a Rádio Caruaru baixinho, daquelas que tocam forró até meio-dia e depois entram com o noticiário da tarde.
Dona Marlene sabia o motivo, mas não contou pra filha na hora. Fazia três invernos que Osvaldo deixava uma faixa de dois metros de largura sem colher, ali na ponta da roça, perto da cerca de arame. Tinha visto isso numa reportagem, dessas que passam no intervalo do futebol, sobre uns fazendeiros lá da Espanha que faziam a mesma coisa pros passarinhos e pros bichos pequenos não passarem fome no frio. Ele nunca comentou com ninguém. Só fazia.
— Sua mãe acha que eu tô ficando caduco — ele disse uma vez, rindo sozinho, catando os grãos de café que tinham caído da xícara na toalha xadrez.
Ela não achava isso. Achava bonito, na real, mas tinha medo. Medo porque cada palmo de terra ali valia sustento, e um casal de idosos não podia se dar ao luxo de brincar de proteger passarinho quando faltava dinheiro pro remédio de pressão. Foi isso que ela falou pra ele, numa noite de agosto, os dois na cama de casal com o ventilador de teto rangendo.
— Osvaldo, essa faixa que você deixa. Dá quanto? Uns oitocentos reais de milho, por safra?
— Mais ou menos isso.
— A gente não tem oitocentos reais sobrando, meu velho.
Ele ficou quieto um tempo. Lá fora, o cachorro deles, o Piloto, latia pra alguma sombra que só ele via.
— Marlene, eu passei minha vida inteira tirando dessa terra. Só quero deixar uma coisinha pra ela, também. Um resto. Não é nada.
Ela não discutiu mais naquela noite. Mas guardou a conta.
O problema de verdade estourou dois anos depois, quando Osvaldo teve o primeiro enfarte. Foi levado pro Hospital Regional de Garanhuns numa ambulância que demorou quarenta minutos pra chegar, porque a estrada de terra do sítio tinha buracos que o motorista precisava desviar mesmo com a sirene ligada. Ele sobreviveu, mas saiu do hospital com uma lista de remédio que custava trezentos e noventa reais por mês e um coração que não aguentava mais capinar, plantar, carregar saco de adubo.
Foi aí que Adilson apareceu. Veio de Recife num Onix branco alugado, terno social, e sentou na sala com os pais e a irmã pra "conversar sobre o futuro do sítio", segundo as palavras dele.
— Pai, o senhor não pode mais trabalhar essa terra. E vender pro seu Zezinho, que já ofereceu cento e vinte mil, é a solução mais sensata. O senhor e a mãe iam pra um apartamento na cidade, perto do posto de saúde, sem esse aperreio de plantar e colher.
Rosineide ficou calada, olhando pro chão de cimento queimado. Ela sabia que o irmão tinha razão na parte prática — mas também sabia que aquele sítio não era só terra. Era o lugar onde o pai deles ainda se sentia gente.
Dona Marlene, que até então nunca tinha se metido nas decisões grandes, foi quem falou primeiro.
— Você já assinou algum papel com seu Zezinho, Adilson?
— Ainda não, mãe. Mas ele quer resposta até o fim do mês.
— Então espera. Antes de qualquer papel, eu quero mostrar uma coisa pro senhor Zezinho.
No sábado seguinte, ela pediu pro genro, marido de Rosineide, levar ela e Osvaldo até a roça de carro, porque ele já não aguentava caminhar tanto. Chamou seu Zezinho pra ir junto — um homem de uns sessenta anos, dono de outras duas propriedades ali perto, conhecido por comprar terra de quem tava desesperado e vender depois em pedaços, bem mais caro.
Ela levou uma pasta de papel pardo debaixo do braço, dessas de escritório, com o contrato de compra e venda que Adilson tinha rascunhado, ainda sem assinatura. E levou também um envelope.
Parados na beira do canteiro que Osvaldo sempre deixava intocado, ela abriu a pasta.
— Seu Zezinho, o senhor quer comprar quatro hectares. Só que desse total, uns duzentos metros aqui, nessa pontinha perto da cerca, meu marido nunca colheu. Faz seis anos. Deixa pros passarinhos e pra caça pequena, no inverno.
— E daí, dona Marlene? Terra é terra, eu compro o todo.
— Daí que eu não vou vender essa pontinha. — Ela tirou do envelope uma folha datilografada que tinha levado ao cartório de registro de imóveis de Garanhuns três dias antes, com o custo de duzentos e quinze reais de taxa. — Fiz um desmembramento. Esses duzentos metros ficam registrados em nome da associação de moradores do assentamento, como área de preservação. Não tá mais dentro do lote que o senhor ia comprar.
Zezinho ficou vermelho, olhou pro Adilson, que também não sabia de nada.
— Mãe, a senhora não pode fazer isso sem eu saber! Esse dinheiro ia ajudar a pagar os remédios do pai, o tratamento…
— O tratamento do seu pai — ela respondeu, sem levantar a voz — vai ser pago com a venda dos outros três hectares e novecentos metros, que ainda dá cento e dezoito mil reais, quase o mesmo valor. E vai sobrar dinheiro pra gente comprar um apartamento simples perto do posto, feito você mesmo sugeriu.
Osvaldo, encostado no capô do carro, não disse uma palavra. Só olhava pra faixa de milho que já tinha virado capim alto, cheio de joão-de-barro fazendo ninho.
Zezinho recusou o negócio assim, pela metade, e foi embora resmungando. Adilson ficou puto por semanas, disse que a mãe tinha "estragado tudo por sentimentalismo". Mas a venda dos três hectares restantes se fechou dois meses depois com outro comprador, um produtor de Caruaru que nem se importou com o pedaço reservado — achou até que dava um charme pra propriedade.
Osvaldo e Marlene se mudaram pro apartamento na cidade, dois quartos, perto do posto de saúde e da feira de sexta-feira. Ele morreu quatro anos depois, dormindo, sem sofrer.
A faixa de terra continua lá até hoje, registrada em nome da associação, virada mato alto que ninguém mexe. Rosineide vai lá de vez em quando, no mês de junho, na época em que o pai sempre deixava aquele canteiro em paz. Da última vez que passei de bicicleta perto da cerca, vi ela parada bem no meio do capim, sem fazer nada, só olhando os passarinhos que iam e vinham entre as espigas que nunca ninguém colheu.







