Trabalho com drones há quase seis anos e já filmei de tudo — casamentos à beira-mar, festas de réveillon em Jurerê, até um pedido de casamento que deu errado no Costão do Santinho. Mas nada, nada mesmo, me preparou para aquela tarde de novembro na Praia do Rosa.
Eu estava fazendo um trabalho comercial para uma pousada. Imagens aéreas do litoral, coisa padrão. O drone ia num voo tranquilo a uns quarenta metros de altura, a câmera ajustada para pegar a transparência da água. Dia útil, praia meio vazia. Só um ou outro surfista e um homem que caminhava com um cachorro.
Foi o cachorro que me chamou a atenção primeiro. Um vira-lata caramelo — desses que têm pedigree de rua e olhar de quem sabe mais que a gente. Ele entrou na água atrás de uma bola e, num instante, a correnteza o pegou. A vala da praia é traiçoeira ali, quem conhece o Rosa sabe. Em dois minutos o bicho já estava uns cem metros costa adentro, nadando com dificuldade.
Abaixei o drone para acompanhar melhor e foi aí que vi o tutor largar o chinelo, jogar a camiseta na areia e se atirar na água. Nadava com força, mas o mar não estava para brincadeira. O coitado avançava dois metros e a correnteza puxava um de volta.
Mantive o drone estável, filmando. Não era voyeurismo, era instinto. Quando você está operando, suas mãos agem antes da sua cabeça.
O homem gritava qualquer coisa que o vento levava. O cachorro já nem latia mais, só mantinha o focinho para cima. E então eu vi.
Primeiro foi uma sombra. Grande, escura, rápida. Movia-se em linha reta por baixo da superfície, exatamente na direção do caramelo. Meu estômago gelou. Na tela do monitor, a silhueta parecia imensa. Respirei fundo e fiz o drone descer mais dez metros.
Quem já filmou o mar de cima sabe como essas formas enganam. Pode ser um tronco, pode ser uma arraia gigante, pode ser o que a sua mente quiser projetar. Mas aquele desenho alongado, aquele movimento preciso — minha cabeça foi direto para tubarão. Lembrei de um ataque que teve em Florianópolis dois anos antes.
O homem na água não tinha visto nada. Continuava nadando, desesperado, alheio ao que vinha por baixo. Quis gritar dali de cima do costão onde eu estava, mas minha voz não alcançaria nem a metade da distância.
A sombra subiu.
E quando emergiu, em vez de uma nadadeira triangular cortando a espuma, o que apareceu foi um bico. Um golfinho. Um golfinho cinza, desses que a gente vê aos montes navegando junto com os barcos de pesca em Garopaba.
Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo. A câmera registrou tudo: o golfinho se aproximou do cachorro, deu uma volta em torno dele, como se avaliasse a situação. O caramelo estava exausto, as patas dianteiras batendo na água com menos força a cada braçada.
Então o golfinho fez algo que eu só tinha visto em documentários. Posicionou-se ao lado do cachorro — não por baixo, mas ao lado, como quem escolta — e começou a nadar lentamente em direção à costa. O vira-lata entendeu. Ou talvez só tenha seguido o instinto de se manter perto de algo vivo. O fato é que os dois traçaram juntos o caminho de volta.
O tutor alcançou o cachorro quando já estavam na arrebentação. A última onda empurrou os três para a areia — o homem, o cão e, um instante depois, o golfinho, que deu um salto breve e sumiu mar adentro.
O drone ainda filmava. Dava para ver o homem abraçando o cachorro molhado, os dois deitados na areia, a respiração ofegante de ambos. Ao fundo, uma nadadeira dorsal despontou por um segundo e desapareceu.
Cortei a gravação. Fiquei uns cinco minutos sentado na pedra, olhando para o monitor. A bateria do drone piscava em 9%, mas eu não conseguia me mexer.
Naquela noite, já no computador da pousada, revisei o material. A cena estava inteira lá: 4 minutos e 38 segundos que iam de um trabalho comercial qualquer a um registro que ninguém acreditaria sem as imagens. Criei uma cópia de segurança, outra na nuvem e mais uma num HD externo que carrego comigo.
Mostrei primeiro para o Clóvis, o dono da pousada. Ele assistiu calado, coçou a barba e disse: "Isso aí não é material de divulgação. É outra coisa."
Os donos do cachorro? Soube depois que eram um casal de Porto Alegre, o Jonas e a Raquel. O caramelo se chamava Mingau — uma ironia, porque de mingau ele não tinha nada, era puro osso e músculo. Quando receberam o vídeo por e-mail, a Raquel me ligou chorando. Disse que o Jonas não conseguia assistir até o fim sem travar a garganta.
Não cobrei nada pelo envio. Era deles, a imagem pertence a quem viveu o momento.
Até hoje, quando faço algum trabalho no litoral catarinense, olho para o mar de um jeito diferente. Não espero que golfinhos virem salva-vidas — isso seria besteira. Mas agora tenho certeza de que, entre uma tomada e outra, entre um ajuste de ISO e outro, o drone pode registrar algo que não estava no briefing. Algo que começa como tragédia anunciada e termina com um salto, uma escolta e um focinho apontando de volta para casa.
O vídeo está numa pasta do meu computador chamada "Trabalhos_2024". Subpasta "Pousada_Rosa". Nome do arquivo: "DJI_0487_ANJO.mp4".







