Eu cheguei no abrigo com um plano bem simples: um gatinho filhote, fofo, limpo, daqueles que a gente já imagina no colo. Meus netos iam enlouquecer. Era só o que faltava no apartamento desde que a vida virou do avesso.
Cinco e pouco da tarde de uma quinta-feira. O abrigo ficava num galpão adaptado no bairro Santo Amaro, em Recife, com cheiro de desinfetante de coco e ração. A voluntária, uma moça de coque com uma tatuagem de beija-flor no pulso, foi me mostrando os filhotes. Três cores, uns rajados, um laranja inteiro que escalava a grade e cravava as unhas no arame. Esses saem rápido, ela disse. R$ 4,40 a passagem de ônibus até ali e eu já estava escolhendo nome.
No fundo da última baia, um gato preto e branco estava encolhido. Magro de doer, a cara meio torta, uma orelha dobrada num ângulo esquisito e a língua pendendo pra fora. Faltava quase metade dos dentes. Na coleira, um laço amarelo de cetim barato, amarrado de qualquer jeito, como se alguém tivesse tentado enfeitá-lo pra visita e desistido no meio.
— Ele tem doze anos — a voluntária conteve a voz. — Já foi adotado duas vezes.
— Duas?
— Devolveram. Disseram que ele é estranho. Olha torto, as crianças se assustam. E a saúde… ração medicada, veterinário frequente. A gente não sabe quanto tempo ainda tem. Talvez um ano. Talvez dois.
O gato me encarou com um ar de quem já tinha ido a entrevistas demais e não esperava mais ser aprovado.
Eu tinha acabado de me divorciar. Cinquenta e cinco anos. O Nelson juntou as coisas e foi morar com a personal trainer de vinte e oito. Os conhecidos faziam aquela cara de velório otimista. *Você vai encontrar alguém.* *Pelo menos agora pode se cuidar.* Frases de confeitaria, tudo glacê por fora e nada dentro. A verdade era outra: eu não tinha sido escolhida. E, pelo visto, o gato da cara torta também não.
— Como ele chama?
— Bartolomeu.
Abaixei na altura da grade. Ele não se moveu. Só pestanejou, bem lento.
— Ô, seu Bartolomeu. Me diga uma coisa: também largaram você por uma versão mais nova?
A língua pra fora não respondeu, mas a pata dianteira encolheu. Foi o suficiente.
Levei o transporte azul. A caixinha pesava menos do que eu imaginava. Dentro, o silêncio absoluto de quem já tinha desistido de miar pra ser notado.
—
Minha irmã Marta apareceu no fim da tarde com uma travessa de escondidinho de charque e a expressão de quem vem inspecionar o estrago. Viu o gato no meio da sala, a cara assimétrica, o laço amarelo torto, a língua de fora.
Parou. Pousou a travessa em cima do aparador. Respirou fundo.
— Você foi no abrigo adotar e pegou justamente o gato da prateleira de baixo?
Bartolomeu estava no tapete da entrada, onde a luz do abajur projetava a sombra dele na parede. Não se moveu um músculo. Só ficou ali, como um objeto fora do lugar em exposição.
— Ele tem doze anos — eu disse, servindo o escondidinho. — Já devolveram duas vezes.
— E você acha que a terceira vai ser diferente por quê? — Marta sentou, passou o guardanapo no colo. — Um bicho velho, cheio de problema, pra quê? As crianças iam gostar de um filhotinho. Isso aí nem brinca mais.
Eu não respondi. Porque não era sobre as crianças.
Nessa hora, aproveitei que ela foi ao banheiro e me apoiei no batente da sala, olhando pro gato. No chão da estante, bem onde ele estava deitado, tinha um carnê do IPTU. Minha parte do apartamento, que o Nelson queria que eu vendesse pra dividir. Eu vinha enrolando, deixando acumular. E o Bartolomeu tinha esticado a pata em cima da capa do carnê, bem onde estava escrito o nome dele, Nelson Ribeiro, como responsável. As garras meio gastas pressionavam de leve o papel.
Na volta, Marta me olhou como quem engole um conselho. Só balançou a cabeça e pegou a bolsa.
— Tá bom. Depois não diz que eu não avisei.
A porta bateu. O interfone ficou mudo.
Bartolomeu não saiu de cima do carnê. Apenas fechou os olhos, devagar, com a dignidade de um juiz que acabou de dar a sentença e não vai repeti-la.
—
Na primeira semana, Bartolomeu não miava. Não subia no sofá. Comia a ração medicada em porções mínimas, como se pedisse desculpas por ainda precisar comer. Eu deixava a porta da varanda entreaberta, mas ele não ia. Ficava no canto, perto da estante, observando.
Eu trabalhava de casa. Revisão de textos técnicos. Sete horas por dia corrigindo pontos e vírgulas de relatórios ambientais, enquanto um gato velho respirava no canto e parecia contar os minutos junto comigo. Estranhamente, o apartamento ficou menor no bom sentido.
No nono dia de manhã, acordei com um peso nos pés. Bartolomeu estava enrodilhado em cima do edredom, a língua de fora, a cara torta, o corpo quente feito uma almofada elétrica. Respirava num compasso tranquilo.
Naquela semana, a audiência de partilha foi remarcada pela terceira vez. O advogado do Nelson alegava que o valor do imóvel tinha que ser recalculado porque o mercado estava instável. Tradução: enrolação. Eu desliguei o telefone e voltei pra sala. Bartolomeu estava na poltrona que era do Nelson, aquela que eu não sentava desde o dia da mudança. Empoleirado como um rei.
Sentei do lado. Ele lambeu a pata e esfregou na orelha torta.
— Quer saber, Bartolomeu? Se você não desistiu, eu também não desisto.
Ele parou de lamber. Me olhou com aquela expressão de quem ouvia promessas fazia doze anos, mas mesmo assim ainda prestava atenção.
—
No fim de novembro, o veterinário me ligou com o resultado do exame de sangue. Insuficiência renal crônica, estágio avançado. O rim estava funcionando a vinte por cento. Fluidoterapia duas vezes por semana, dieta rigorosa, remédio de pressão.
— Quanto tempo? — eu perguntei, sentindo o ar da clínica no pescoço.
— Difícil cravar. Com os cuidados certos… meses. Talvez semanas.
A clínica era na Rua da Hora, perto do mercado de Casa Amarela. Lembro que do lado de fora tinha um pipoqueiro, e o cheiro de pipoca com sal entrava pela janela enquanto eu segurava o telefone.
Cheguei em casa e Bartolomeu não estava no lugar de sempre. Procurei no quarto, no banheiro, varanda. Nada. Meu coração disparou. Abri o armário do corredor, aquele que eu nunca usava, e lá estava ele. Dentro da caixa de sapatos onde eu guardava as alianças velhas e a carteira de casamento. Deitado em cima do veludo preto da caixinha. A língua de fora. Vivo, mas quieto.
Sentei no chão do corredor encostada na parede gelada. O eco do telefone ainda martelando na cabeça. *Semanas.* Passei a mão devagar pelo lombo magro dele.
— Você é impossível, sabia? — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. — Doze anos. Devolvido duas vezes. E ainda assim tá aqui. Dentro do meu armário.
Ele não se mexeu.
Ficamos ali. Eu e um gato que ninguém quis. No corredor escuro, sentindo o cheiro de naftalina e poeira, ouvindo o relógio da sala bater seis horas da tarde.
—
Na véspera de Natal, choveu em Recife. Água pesada, trovoada, relâmpago estalando na rede elétrica. Minha irmã ligou às oito.
— A ceia amanhã vai ser aqui em casa. Traz um vinho, que dessa vez não vou fazer peru seco igual ano passado.
— Marta, eu não vou poder ir.
Silêncio. Depois a respiração dela, longa.
— Por causa do gato.
— Ele não pode ficar sozinho. A fluidoterapia é de manhã, e à noite eu preciso dar o remédio. Não dá pra sair e voltar no outro dia.
Bufou. E ouvi o barulho de panela sendo pousada com força.
— Você vai passar o Natal sozinha com esse bicho? Isso é saudável, é? O Nelson te largou, mas a vida não acabou.
— Eu não estou sozinha — respondi. — E o nome dele é Bartolomeu.
Desliguei.
A chuva martelava na janela da sala e o ventilador de teto fazia um clique irregular. Sentei no sofá, puxei o Bartolomeu pro colo. Ele pesava quase nada. A língua pra fora. A orelha torta. A cara assimétrica. Linda.
Na televisão, um especial do Roberto Carlos. Eu aumentei o volume. Cantei junto, baixinho, uma música sobre emoções e paz. Bartolomeu ronronou. Pela primeira vez, forte, como se finalmente tivesse entendido que a casa era dele.
—
Janeiro chegou com um sol de lascar. Numa quarta-feira, a clínica ligou cedinho. O quadro tinha piorado de um dia pro outro. Era melhor levá-lo pra internação, mas a veterinária deixou claro: as chances eram pequenas.
Coloquei a caixa de transporte azul no banco do passageiro do carro da Marta — ela emprestou, mesmo resmungando. Dirigi até a Rua da Hora com a respiração presa, como se soltar o ar pudesse acelerar o tempo.
Na salinha de atendimento, Bartolomeu estava deitado em cima da mesa de inox, pequeno demais para o espaço, as patas frias. A veterinária ajustou o soro. Os olhos dele estavam fechados, mas o corpo tremia de leve.
— Se ele passar dessa noite, a gente conversa amanhã.
Eu fiz um cafuné atrás da orelha torta.
— Ei, seu Bartolomeu. — minha voz saiu num fio. — Você me escolheu naquele dia. Eu sei. Eu sou a terceira adoção. A definitiva.
Encostei a testa na cabeça dele. A clínica cheirava a álcool e a pelo molhado. O relógio na parede marcava meio-dia e vinte. Lá fora, o pipoqueiro estava na esquina, e o cheiro de pipoca doce invadia o consultório.
E então ele abriu os olhos. Amarelos, gastos pelo tempo. Me encarou.
E lambeu meu dedo.
Uma vez. Só. Como quem diz: *eu também escolhi*.
A veterinária ficou em silêncio. Depois ajeitou o soro e saiu.
Bartolomeu passou a noite. Passou a semana. Voltou pra casa uma quinta-feira de manhã, mais magro, mais lento, mas com o mesmo laço amarelo que eu tinha trocado por um novo, de cetim vermelho, comprado na feirinha da Encruzilhada.
—
Oito meses se passaram. Agosto. Inverno de chuva fina em Recife.
Marta apareceu com um bolo de rolo e café. Sentamos na varanda, olhando a garoa cair. Ela não perguntou mais se eu ia arrumar alguém. Não insistiu no convite pra ceia de Natal do ano seguinte. Acho que entendeu.
Bartolomeu estava numa caminha forrada com manta de patchwork, bem do lado da minha cadeira. A respiração tranquila. O corpo quentinho. A língua pra fora, como sempre.
— Sabe — Marta mexeu o café. — Ele tem cara de velho sábio.
— Tem mesmo.
Ficamos em silêncio mais um pouco.
— Posso trazer um patê de atum pra ele na sexta — ela disse, e não era pergunta.
Olhei pro Bartolomeu. Ele soltou um suspiro comprido, daqueles que só gato velho sabe dar. O laço vermelho subiu e desceu no peito magro.
A garoa passou. O bolo acabou. A sexta-feira ia chegar.







