Seu Osmar acordava às cinco e meia. Sem despertador. O corpo já sabia a hora. Café preto às seis, sem açúcar, na xícara de ágata azul que a falecida esposa tanto gostava. Depois, a caminhada de quarenta minutos — sempre o mesmo percurso na Praça da Liberdade, contornando o coreto, passando pelos bancos de ferro. Almoço ao meio-dia. Jornal das duas às três. Sesta. Tudo rigidamente encaixado. Depois que Dona Zilda partiu, essa disciplina se tornara mais feroz. Não era luto. Era um esqueleto. Enquanto o cronograma estivesse de pé, ele ainda se mantinha inteiro.

A neta chegar num fim de tarde de dezembro: Camila. Bronzeada, barulhenta, arrastando uma mochila e uma caixa de transporte que balançava e soltava uns ganidos abafados.

— Vô — falou antes mesmo de tirar o tênis. — Essa aqui é a Pipoca. Ela é um amor.

Osmar olhou para a caixa. Depois para Camila.

— Que que é isso?

— Dachshund. Salsichinha. Ó, pequenininha assim.

— Tô vendo que não é um boi. Pra quê?

— Vô, não tinha com quem deixar, a mãe viajou, o apartamento ia ficar vazio uma semana…

— No tanque — disse ele. — Põe a caixa no tanque. Fica lá fora. Sem discussão.

Camila abriu a boca, ponderou.

— Tá. No tanque. Por enquanto.

Ninguém deu atenção para aquele *por enquanto*.

Erro.

A Pipoca se revelou comprida, marrom-escura, com um focinho que parecia já ter nascido sabendo de tudo. Farejou a entrada — metódica, profissional —, depois passou para a sala, checou o tapete, o sofá, o canto do aquecedor.

Osmar foi atrás, observando.

Ela parou bem no meio da sala. Olhou para ele. Sem medo nenhum. Curiosa. E sentou.

— No tanque — disse Osmar, com a voz que usava para repreender funcionários no escritório.

A cadela não se moveu.

— Eu falei: no tanque.

A Pipoca bocejou. Escancarado. Com gosto.

Osmar deu um passo. Ela não correu: simplesmente se levantou com calma e se enfiou embaixo do sofá.

Ele ficou parado no meio da própria sala, olhando para o vão entre o estofado e o chão. Quarenta anos chefiando gente no fórum. E aquilo sempre funcionava.

Com o tempo, a Pipoca deixou de irritar. Virou parte do ambiente. E olhava para ele. O tempo todo. Deitada aos seus pés, acompanhava cada movimento — atenta, cabeça levemente inclinada, como se escutasse alguma coisa que ele ainda não tinha dito.

Uma tarde, lendo sobre o aumento da carne, Osmar resmungou alto, sem pensar:

— Absurdo.

A Pipoca deu um latido. Seco. Só um.

Ele baixou o jornal e olhou por cima dos óculos.

— Você concorda?

Ela sustentou o olhar.

— Pois é — disse ele. — Absurdo, sim.

Foi a primeira conversa dos dois.

Uma semana depois, Osmar entrou num pet shop no centro. Pegou a ração mais barata — a mesma que Camila trouxera. Colocou no cesto. Depois olhou para a prateleira ao lado. Tinha outra. Mais cara. Na embalagem: *para cães ativos de raças pequenas, com cordeiro*. Segurou. Largou. Pegou de novo. A bicha corria o dia inteiro, feito um foguete. Levou a cara.

Em casa, encheu a tigela. Pipoca se aproximou, cheirou e começou a comer direto — sem as voltas desconfiadas de sempre.

Ele ficou olhando e sentiu uma coisa estranha. Não era orgulho. Nem alegria. Era mais simples: só um *bom*, ela está comendo.

Na quarta, durante a caminhada na praça, encontrou o Seu Nélio, aposentado do banco, sempre de bengala e sempre com um palpite sobre a vida alheia.

— Osmar! Agora tá passeando com cachorro?

— É da neta — respondeu, como quem se defende.

— Bonitinho. Salsicha?

— Salsicha.

— Minha Dalva, que Deus a tenha, adorava salsichinha. Dizia que eram espertos. Às vezes mais espertos que a gente.

Osmar ficou calado. Observou a Pipoca, que encontrara alguma coisa fascinante debaixo de uma pata de vaca e trabalhava nisso com uma seriedade profissional.

— Vai ficar com ela? — perguntou Nélio.

— Não. A Camila vem buscar na sexta.

— Vai se arrepender.

— Não me arrependo de nada — disse Osmar. — Casa organizada de novo.

Falou firme. Mas tinha alguma coisa errada no som daquelas palavras. Ele sentiu.

A Pipoca veio correndo e enfiou o focinho no sapato dele. A mão desceu sozinha — coçou atrás da orelha. Ela apertou os olhos.

Casa organizada. Silêncio. Tapete limpo. Quarenta minutos de caminhada, o mesmo trajeto. Tudo como antes.

E, de repente, ele enxergou aquele *como antes* com uma nitidez gelada. O apartamento às seis da manhã — mudo, imóvel. Café solitário. Jornal que não se comenta com ninguém. O fim de tarde sem motivo nenhum para sair. Três anos vividos assim. Aquilo era organização. Mas agora aquela imagem já não parecia organização.

Parecia vácuo.

Quinta à noite, Camila arrumava a mochila. Pipoca sentada ao lado, acompanhando os preparativos com um nervosismo evidente — orelhas baixas, um ganido fino e contido.

Osmar parou na porta do quarto. Ficou ali, apoiado no batente.

— Deixa o bicho.

Silêncio.

Camila levantou os olhos. Sorriu devagar. Daquele jeito que a gente sorri quando alguma coisa se encaixa no lugar certo.

— Tá bom, vô. Deixo.

Pipoca latiu. Um tiro só. Como se estivesse dando o ponto final.

Camila partiu na sexta de manhã. Osmar fez questão de carregar a mochila até o carro, não deixou ela levar. A neta o abraçou na calçada — apertado.

— Liga — disse ele.

— Ligo. E você.

— Não ligo à toa.

— Vô. Liga.

O carro sumiu na esquina. Ele ficou parado um instante, sentindo o cheiro de gasolina queimada se dissipar. Subiu.

No corredor, a Pipoca esperava.

Osmar tirou os sapatos. Pendurou a jaqueta.

— Agora somos dois — falou.

Ela latiu.

— Pois é. Muito bem.

A organização continuou. Acordar às cinco e meia, café às seis. As caminhadas passaram a ser três — e isso também virou rotina, só que nova. O jornal no chão, dobrado no canto, era um fato consumado. De manhã, durante o café, Osmar lia em voz alta. Política nacional, notícias do bairro, às vezes a previsão do tempo. Pipoca sentava ao lado e escutava — séria, a cabeça um tiquinho virada para a direita.

De noite, ela subia no colo dele e se enroscava feito um caracol. Ele apagava a luz. Ela respirava tranquila, ritmada. Osmar ficava deitado, escutando.

Silêncio. Mas não vácuo.

E era uma diferença enorme.

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Sixty & Me
Seu Osmar acordava às cinco e meia. Sem despertador. O corpo já sabia a hora. Café preto às seis, sem açúcar, na xícara de ágata azul que a falecida esposa tanto gostava. Depois, a caminhada de quarenta minutos — sempre o mesmo percurso na Praça da Liberdade, contornando o coreto, passando pelos bancos de ferro. Almoço ao meio-dia. Jornal das duas às três. Sesta. Tudo rigidamente encaixado. Depois que Dona Zilda partiu, essa disciplina se tornara mais feroz. Não era luto. Era um esqueleto. Enquanto o cronograma estivesse de pé, ele ainda se mantinha inteiro.