Dona Sebastiana não era de reclamar da vida. Aos sessenta e cinco anos, viúva, dona de uma casa de janelas azuis em Paraty, ela levava os dias entre os pincéis e as telas do seu ateliê improvisado na varanda. A companhia mais constante era Flor, uma gata cinzenta de pelos longos que o falecido marido trouxera para casa numa tarde de chuva. “É pra cuidar de você quando eu não estiver mais aqui”, dissera o seu Agenor, rindo, com a gata ainda filhote enfiada no bolso do casaco. Vinte anos depois, Agenor se fora, e a gata permanecia.
Só que Flor, que sempre dormira aos pés da cama feito um novelo morno, começou a enlouquecer.
Todas as noites, pontualmente às três e meia da madrugada, a pata gelada tocava o rosto de Sebastiana. Primeiro, um toque tímido, quase um pedido. Depois, se a mulher resmungasse e virasse para o lado, a gata fincava as garras de leve no ombro. Arrancava o lençol. Empurrava a cabeça contra a bochecha da dona, miando num tom que não era miado — era um choro rouco, agudo, insistente.
— Tá doida, Flor? — Sebastiana esbravejava, acendendo a luz do abajur.
A gata não se intimidava. Arqueava o corpo, eriçava os pelos da cauda e corria para a porta. Depois voltava. Encarava a dona. Corria de novo para a porta.
A única forma de conseguir silêncio era Sebastiana levantar, calçar os chinelos e ir para o sofá da sala. O corpo dolorido, a cabeça pesada, o coração trovejando no peito. Assim que a mulher deixava o quarto, Flor saltava na cama, ocupava exatamente o espaço quente do travesseiro e adormecia.
Pela manhã, a gata estava calma. Ronronava no colo de Sebastiana. Esfregava o focinho nos tornozelos da dona. Um anjo de bigodes. Mas bastava o sol se pôr para a angústia voltar ao olhar amarelo.
No começo, Sebastiana culpou a idade. Gato velho fica esquisito, pensou. Depois, virou a culpa para si mesma. Insônia, estafa, estresse. O clínico geral receitou chá de camomila e um comprimido para dormir. Não adiantou. Um psiquiatra de Angra sugeriu que era depressão mascarada, luto acumulado. Sebastiana tomou a medicação direitinho e continuou acordando às três e meia com a gata no seu peito.
Foi numa manhã de maio que dona Sebastiana colocou Flor na caixa de transporte e foi para a clínica veterinária da cidade vizinha. O doutor Caetano a recebeu com a calma de quem já viu bicho e gente em todo tipo de desespero.
— Sua gata tá com distúrbio psiquiátrico, doutor. Não me deixa dormir. Me expulsa da minha própria cama. Toda santa noite.
O veterinário era um homem de óculos leves e mãos muito firmes. Examinou Flor com cuidado. Apalpou o abdômen, ouviu o coração, checou os reflexos. A gata não desgrudou os olhos claros da dona. Nem por um segundo.
— Ela se alimenta bem? — perguntou Caetano.
— Feito um trator. Mas a ração tem que ser aquela importada, viu? Se eu troco a marca, ela faz greve de fome.
— Hábito urinário?
— Perfeito. A caixinha de areia é mais limpa que o meu próprio banheiro.
O veterinário passou a mão pelo dorso cinzento da gata. Franzir a testa.
— Dona Sebastiana… a senhora se sente mal durante esses episódios?
A pintora ajeitou a gola da blusa.
— Ora, doutor, todo dia três e meia. Acordo com o peito explodindo, uma falta de ar esquisita, um zonzeamento… Parece que eu tô me afogando no travesseiro. Tenho que sentar, tomar água. No sofá da sala passa mais rápido.
Caetano tirou os óculos. Esfregou a ponte do nariz. A gata o encarava, imóvel.
— A senhora ronca?
— Que absurdo, doutor. Uma dama nunca ronca.
— Mas a senhora tem alguém que possa afirmar isso?
Sebastiana pensou no caseiro que às vezes dormia no porão. “Dona Bá, a senhora parece que engasga durante a noite. Dá até um silêncio. Depois parece que a senhora arranca o ar com a unha.”
O veterinário se agachou para ficar na altura da caixa de transporte. Encostou a mão na grade.
— Vou lhe dizer uma coisa que eu aprendi em trinta anos de clínica. Gato não faz nada à toa. Ele não se vinga, não manipula, não age por birra. Se Flor arranca a senhora da cama toda noite, na mesma hora, não é pra roubar o seu travesseiro. É pra lhe salvar de alguma coisa que está acontecendo naquele travesseiro.
O ar da sala pareceu pesar.
— A senhora vai no cardiologista. Não amanhã. Hoje. Leva a gata de volta. E conta pro médico tudo o que me contou. As três e meia. A taquicardia. A sufocação. O zonzeamento. A respiração que para.
Dona Sebastiana saiu da clínica calada. Naquela noite, Flor agiu da mesma forma: pata na cara, miado áspero. Mas a mulher, dessa vez, não brigou. Sentou-se na cama, com o coração descompassado, e passou a mão trêmula pela cabeça da gata.
— Tá certo, Flor. Eu vou.
A consulta com o cardiologista veio na semana seguinte. Depois, o exame de polissonografia. O laudo chegou numa tarde abafada de janeiro, com cheiro de terra e mangaba: apneia obstrutiva do sono, em grau severo. Naquelas madrugadas no travesseiro, a respiração de Sebastiana simplesmente parava. O cérebro, sem oxigênio, mandava o coração disparar, como um carro batendo a partida no escuro. Isso, noite após noite. Há três meses, uma dessas paradas poderia ter sido a última.
Ninguém notava. Só a gata.
O tratamento incluiu um aparelho CPAP, recomendação de fisioterapia respiratória e ajustes na alimentação. A primeira noite com a máscara sobre o nariz foi um martírio. Sebastiana se sentia um astronauta desajeitada. Flor se aproximou com desconfiança, cheirou o tubo flexível, cutucou o umidificador com a pata. Depois, lentamente, subiu na cama. Cheirou o rosto da dona. Sentiu o fluxo de ar contínuo, regular.
E nunca mais a acordou às três e meia.
Na terceira noite de sono ininterrupto, Sebastiana acordou às oito, com o sol esquentando a colcha de retalhos. Flor dormia aninhada na curva do seu joelho, o ronronado vibrando num compasso tranquilo. A mulher chorou baixinho, sem saber explicar por quê. Apenas pousou a mão sobre o pelo macio e ficou ali.
Dois meses depois, dona Sebastiana voltou à clínica veterinária. Dessa vez, sem caixa de transporte. Flor estava deitada em seu colo, como um bebê.
— Vim agradecer, doutor Caetano. E pagar a consulta que eu esqueci da outra vez.
O veterinário sorriu, recusando o dinheiro.
— Como a senhora está se sentindo?
— Dormindo como uma pedra. Com esse trambolho de máscara na cara. Acordo renovada. Pintei três quadros esse mês, coisa que não fazia há um ano. Tô vendendo até.
Olhou para a gata.
— E ela… ah, doutor. Ela dorme no meu travesseiro. Junto comigo. Descobri que ela só queria me tirar dali enquanto fosse perigoso. Agora que o perigo passou, ela quer ficar. Eu puxo o ar, e ela ronrona. Que nem um motorzinho.
Caetano coçou a cabeça de Flor.
— Impressionante, não é? A gente acha que tá cuidando deles, e são eles que nos salvam.
Sebastiana beijou a testa da gata. Saíram da clínica, e o sol de Paraty pintava as pedras da calçada com uma luz dourada.
Naquela noite, a pintora se deitou, ajeitou a máscara sobre o nariz, e Flor subiu na cama com a elegância de uma bailarina. Enrolou-se no espaço entre o ombro e a orelha da dona. E assim que a primeira respiração constante encheu o quarto de um sopro ritmado, a gata fechou os olhos. O ronronado se fundiu ao zumbido do aparelho, como se os dois calibrassem um ao outro.
Às três e meia, Sebastiana abriu os olhos por puro costume. Flor ergueu a cabeça, cheirou o rosto da dona, lambeu-lhe a ponta do queixo. A respiração estava lá — ampla, tranquila, viva. A gata então tornou a fechar os olhos.
E pela primeira vez em meses, Sebastiana não se levantou. Apenas virou o corpo, sentindo o calor do animal aninhado, e mergulhou num sono tão profundo que nem os sonhos ousaram perturbar.







