A chuva caía forte enquanto o carro atravessava as ruas da cidade.
Sofia segurava firme a sacola de comida no colo.
De vez em quando olhava para Miguel, como se tivesse medo de que ele desaparecesse.
— Minha mãe dizia que você era gentil — comentou baixinho.
Ele soltou uma risada amarga.
— Acho que faz muito tempo isso.
— O que aconteceu?
Miguel demorou para responder.
— Eu fiquei tão obcecado em vencer na vida… que acabei perdendo tudo o que realmente importava.
O motel ficava numa área esquecida da cidade.
Velho.
Úmido.
Com uma placa de neon piscando.
Quando chegaram ao corredor do segundo andar, Miguel sentiu algo estranho imediatamente.
A porta do quarto estava entreaberta.
— Mamãe? — Sofia correu.
Ele a segurou rápido.
O quarto estava silencioso demais.
Um copo quebrado no chão.
Uma luz fraca perto da cama.
E sentada perto da janela…
Helena.
Mais magra.
Pálida.
Cansada.
Mas ainda era ela.
Os olhos encontraram os dele.
E o mundo pareceu parar.
— Você veio… — sussurrou ela.
Miguel sentiu a garganta travar.
Sofia correu para abraçar a mãe.
— Eu trouxe comida!
Helena acariciou o cabelo da filha e então olhou para Miguel com medo verdadeiro.
— Eles nos encontraram.
O rosto dele endureceu.
— Quem?
— Os homens do Augusto Ferraz.
Miguel gelou.
Augusto era o homem que destruiu sua vida vinte anos antes.
O criminoso que o obrigou a fugir.
Todos acreditavam que ele estava morto.
— Eles querem os documentos — disse Helena.
— Eu destruí aquilo há anos.
— Eles não acreditam.
Ela começou a tossir forte.
Sofia se assustou.
— Mamãe…
Miguel se aproximou rapidamente.
— O que você tem?
Helena abaixou os olhos.
— Meu coração está falhando.
Ele sentiu o chão sumir.
— Há quanto tempo?
— Alguns meses.
— Por que você não me procurou?
Ela deu um sorriso triste.
— Eu tentei. Mas pessoas como você ficam difíceis de alcançar.
A culpa esmagou Miguel por dentro.
Seguranças.
Secretárias.
Empresas.
Dinheiro.
Ele construiu tantas barreiras que a mulher que amava não conseguiu mais chegar até ele.
Sofia observava os dois confusa.
Então Helena segurou a mão da filha.
— Sofia… ele é seu pai.
Silêncio.
A menina virou lentamente para Miguel.
— Você é mesmo meu pai?
Ele mal conseguiu respirar.
Oito anos.
Primeiros passos.
Aniversários.
Medos.
Sonhos.
Ele perdeu tudo.
E não por azar.
Por escolhas.
Os olhos de Sofia se encheram de lágrimas.
— Eu sempre quis que fosse você…
Algo dentro de Miguel finalmente se quebrou.
Mas antes que alguém pudesse falar mais, batidas fortes ecoaram na porta.
Todos congelaram.
Então a porta foi arrombada.
Um homem alto entrou no quarto segurando uma arma.
— Que cena bonita — disse com um sorriso frio.
Miguel reconheceu imediatamente.
Ricardo Mota.
O antigo braço direito de Augusto.
Um homem que deveria estar morto.
Ele apontou a arma diretamente para Sofia.
— Onde estão os documentos?
Miguel ficou na frente da filha sem pensar.
Pela primeira vez em décadas, estava disposto a perder tudo por alguém.
E naquele instante, sem que ninguém percebesse, Sofia colocou a mão debaixo do colchão velho.
Seus dedos tocaram algo gelado.
Metal.
Ela levantou os olhos assustados para o pai.
E Miguel entendeu naquele momento:
dessa vez… ele não abandonaria ninguém.
E vocês… acreditam que alguém realmente pode mudar depois de destruir a própria vida? Ou algumas escolhas nunca podem ser perdoadas?
